Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Maio

Há gente que coloca a lista de filmes que viu em determinado mês no seu blogue por um só motivo: mostrar ao mundo o quão maravilhoso é o seu gosto e quão impressionante é a quantidade de filmes que vê por mês. Para se armar, no fundo. No meu caso, essa não é a única razão. Passo a colocar aqui esta lista, essencialmente, porque sou preguiçoso. Vejo mais filmes num mês do que aqueles sobre os quais tenho vontade de escrever alguma coisa, e preciso do exercício. Ao meu solitário leitor: se (ainda) não me desertaste, irrita-te e protesta à vontade. A gerência agradece.

 

Laura (1944), Otto Preminger (****)
Sleeper (1973), Woody Allen (***)
Love and Death (1975), Woody Allen (****)
Essential Killing (2011), Jerzy Skolimowski (**)
Annie Hall [r] (1977), Woody Allen (****)
Dokfa nai meuman [Mysterious Object at Noon] (2000), Apichatpong Weerasethakul (***)
Interiors (1978), Woody Allen (***)
Manhattan [r] (1979), Woody Allen (*****)
Louis C.K.: Shameless (2007), Louis C.K.
Steamboat Bill, Jr. (1928), Charles Reisner (***)
Louis C.K.: Chewed Up (2008), Louis C.K.
Le Quattro Volte (2010), Michelangelo Frammartino (****)
Broadway Danny Rose (1984), Woody Allen (****)
Louis C.K.: Hilarious (2010), Louis C.K.
Sud Sanaeha [Blissfully Yours] (2002), Apichatpong Weerasethakul (****)
Hannah and Her Sisters (1986), Woody Allen (****)
Team America: World Police [r] (2004) , Matt Stone e Trey Parker (***)

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Fábio Jesus às 12:42
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Apichatpong, dois

 

Há tempos ouvi o Francisco José Viegas a falar sobre sexo na literatura. Dizia ele que preferia o sexo inferido ao sexo contado, em especial àquele descrito com a subtileza de um gajo perante um bolo de chocolate ao fim de um mês de dieta. Referia-se em especial a uma passagem de Transa Atlântica, de Mónica Marques, que considerava exemplar: o casal (o par?) chegava a casa, dirigia-se ao quarto, trancava a porta e a elipse que se seguia dizia-nos tudo o que havia para dizer. Na literatura descreve-se, mas no cinema mostra-se, e a ter que haver sexo, todo ele devia ser filmado como em Blissfully Yours (Sud Sanaeha), despudoradamente, honestamente, carnalmente, respeitando as durações, sem resvalar do cinema para a pornografia mesmo quando a protagonista acaricia o pénis do companheiro, despreocupadamente, só porque sim, enquanto ele dorme. Em Blissfully Yours infere-se muita coisa, particularmente na segunda metade (que se tornou mais ou menos famosa por se seguir a um genérico que surge uns bons 45 minutos após o início do filme), mas mostra-se o sexo. O resto é um filme de uma notável economia, um conto de fadas na floresta que faz lembrar Malick e, especialmente, Rohmer, não pela palavra (que escasseia) mas pela espécie de bolha fora de qualquer realidade que as três personagens habitam temporariamente, naquela tarde longe de tudo, e que também lá está nas aventuras “campestres” do francês, e em particular no fabuloso Le Genou de Claire. É também, e em especial após Mysterious Object at Noon, um filme mais conciso, mais linear – a primeira parte é quase, como li algures, expositiva – sem deixar nunca de ser maravilhosamente estranho (ouça-se o pop tailandês que surgem de vez em quando, momentos de estranheza num filme em que há poucos diálogos e em que a banda-sonora é o som da natureza), misterioso e belíssimo.

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Fábio Jesus às 12:33
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Terça-feira, 31 de Maio de 2011

As quatro voltas

 

Le Quattro Volte é outro exemplo arquetípico daquilo que certa crítica convencionou ser um filme que “não é para toda a gente”. Como se houvesse filmes para toda a gente. Le Quattro Volte é, essencialmente, um filme mudo cuja grande força é dar a ilusão de nada se passar quando se passa tudo. A única linha de diálogo minimamente discernível, se a memória não me trai, é um frágil “grazie” que o velho pastor solta a dado instante como agradecimento pelo pó “sagrado” de chão da igreja que ele julga curá-lo da maleita que o aflige (e que fica, como muita coisa no filme, por nomear). Frammartino desloca-se com flair entre a ficção e o documentário e, se a dada altura pensamos que a miséria daquele homem – que ilusoriamente nos parece o único resquício de protagonista que o filme tem até morrer a meio para ceder o seu lugar proeminente àquelas imensas cabras, que eventualmente também elas desaparecem para não voltar mais; este é um filme recheado de momentos fugazes – e a outra, à volta dele, naquela aldeia calabresa perdida no tempo, é demasiado verdadeira para ser ficcionada, noutra uma cabra sobe a uma mesa e pontapeia uma panela de tal forma que a impressão com que ficamos é que aquilo só pode ter surgido com aquela naturalidade ao milésimo take. Numa cena central, dois movimentos de câmara contam-nos o filme: um plano elevado mostra um miúdo a brincar com um cão em frente à vedação que prende o rebanho e uma carrinha parada numa estrada inclinada, perpendicular à vedação; subitamente, os travões cedem e a carrinha começa a deslizar. Ao mesmo tempo, o miúdo começa a correr para fora do plano. Sabemos que a carrinha vai destruir a vedação, e há um instante em que pensamos que este será o momento “espectacular” do filme. Frammartino, no entanto, opta por seguir o miúdo: a câmara roda para a direita e ouve-se o estrondo em off. Quando, um instante depois, a câmara faz o movimento inverso e volta ao enquadramento inicial, as cabras ocupam toda a estrada e invadem a casa do pastor, que na cama definha. Fica tudo dito, ali, assim.

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Fábio Jesus às 01:33
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Apichatpong, um

O que dizer sobre o primeiro filme de Apichatpong Weerasethakul? Se me quisesse armar em engraçadote diria que Dokfa nai Meuman (Mysterious Object at Noon) é um objecto misterioso ao meio-dia e a qualquer outra hora do dia, mas não vou fazer isso. Mysterious Object at Noon vê-se como uma anti-tese (não confundir com antítese); como se o realizador – que estudou cinema nos Estados Unidos – tivesse chegado ao fim do curso, feito as malas, pegado no manual e, zéro de conduite, decidido fazer o oposto daquilo que os ditames do cinema narrativo lhe ordenavam. Objecto fascinante, e, sim, misterioso (hah!), pelo espectacular pontapé em qualquer gramática mais ou menos convencional que dá a cada instante. Não percebemos nada, mas percebemos ao tailandês a vontade de fazer cinema. O statement está feito.

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Fábio Jesus às 01:12
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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Simpatias

Chamar a um filme – ou a um disco ou a um livro ou a coisa que o valha – “simpático” é passar-lhe um atestado de insignificância. Tal como chamar-lhe “competente” ou “bem feito”. “Simpático” não é nada. E é tanto pior porque parece um elogio mas não passa de um insulto velado, sem a atenuante do tom irónico com que boa parte desse maravilhoso e utilíssimo subgénero do insulto é habitualmente verbalizada. Adjectiva-se honestamente um filme de “simpático” porque não se tem nada de substancialmente positivo ou negativo para dizer dele. O filme “simpático” é, portanto, o filme que não nos fere – no bom sentido – de forma alguma; limitamo-nos a sentar-nos (ou a ficar de pé, ou deitado, conforme a inclinação posicional de cada um), consumi-lo pensando ocasionalmente num “ai que bonitinho e bem feitinho” e noutras coisas acabadas em inho, e depois esquecê-lo imediatamente e para sempre. Tudo isto a propósito de The Kids are Alright, um filme que denuncia as suas credenciais indie logo no início, numa série de travellings ao som dos Vampire Weekend, e depois mantém-se num registo falsamente “alternativo” e “liberal” que se esforça em vão por camuflar o profundo convencionalismo da narrativa e do estilo. E que, ainda assim, e em boa parte por causa do show de actores, não deixa de ser um filme irremediavelmente simpático. 

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Fábio Jesus às 21:31
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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

Filmes difíceis

Robin Wood has a wonderful passage on the subject of difficult cinema in a 2004 essay on Claire Denis' I Can't Sleep. It appears in a section he titles "Confessions of an Incompetent Film Critic." Let me quote it at some length:

For people of my generation, who grew up in the 1940s/50s on an exclusive diet of classical Hollywood cinema (with the occasional British movie), the European ‘arthouse’ cinema always presented problems which linger on even today, a simple basic one being that of following the plot. This is not because the plot is necessarily complex or obscure, but, frequently, because of the way in which the characters are introduced and the action presented. When I grew up there was remarkably little serious criticism available (not much beyond the weekly reviews), and film studies courses in schools or universities were not even thought of. I was seventeen when I saw my first foreign language film (Torment/Frenzy [Hets, 1944], by Alf Sjöberg, from an early but already characteristic screenplay by Ingmar Bergman). I knew from the reviews that it would carry me far beyond anything I had seen previously, both in style and subject-matter, and my hand was trembling when I bought my ticket. I believe I had great difficulty following it (my first subtitles, not to mention extreme psychological disturbance). Fifty-five years later I still have the same problem when confronted with the films of Claire Denis (or Michael Haneke, or Hou Hsiao-Hsien…). The habits acquired during one’s formative years are never quite cast off; when I showed I Can’t Sleep to a graduate film group last year, my students corrected me over a number of details and pointed out many things I hadn’t noticed, although this was their first viewing of the film and I had already watched it three times. A classical Hollywood film – however intelligent and complex – is dependent on its surface level upon ‘popular’ appeal and its action must be fully comprehensible to a general audience at one viewing, covering all levels of educatedness from the illiterate to the university professor. (The same was of course true of the Elizabethan theatre – see, for example, the conventions of the soliloquy and the aside, wherein a character explains his/her motivation, reactions or thoughts to the audience). One of the cardinal rules was that every plot point must be doubly articulated, in both the action and the dialogue; another was the use of the cut to close-up that tells us ‘This character is important’; yet another, the presence of instantly recognizable stars or character actors. All of these Denis systematically denies us. It is a part of her great distinction that her films (and especially I Can’t Sleep, arguably her masterpiece to date) demand intense and continuous mental activity from the spectator: we are not to miss a single detail or to pass over a gesture or facial expression, even if it is shown in long shot within an ensemble, with no ‘helpful’ underlining and no 'spelling out' in dialogue.

It is the particular distinction of Denis’ cinema that sets it apart from – almost, indeed, in opposition to – the work of many of our most celebrated ‘arthouse’ directors: Bergman, for example, or Fellini or Antonioni. Their films are rooted in autobiography – not necessarily in any literal sense, but in terms of personal introspection – whereas Denis left autobiography behind with Chocolat, and even that film is notable for its poise and critical distance, its objectivity. Where Bergman or Fellini seems to be saying to us ‘Come with me and I’ll tell you my secrets, share my experiences – how I feel about things, my thoughts about existence’, Denis issues a very different invitation to the spectator: ‘Come with me and we’ll play a game, albeit a serious one. Let’s see how much you can notice in what I decide to show you, how you interpret what you see and hear, what connections you can make, how much can be explained and how much remains mysterious and uncertain, as so much in our lives remains unclear. I’ll allow you a certain leeway of interpretation, because I don’t always understand everything myself, not even my own creations, though I’ll be as precise as possible…’

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Fábio Jesus às 19:00
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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

O adeus televisivo de uma das bandas do século

 

 

 

 

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Fábio Jesus às 00:52
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Black Swan

 

Black Swan é um filme obcecado por espelhos e, portanto, por simetrias. São os espelhos da Companhia de Ballet, do salão de ensaios e dos camarins, da casa de Nina, da casa-de-banho do clube nocturno, do metro. Por outro lado, é o cisne branco e o cisne negro e as variações equivalentes na personalidade e nível de loucura de Nina, é Lily a representar logo de início aquilo em que Nina precisa de se tornar para “se transcender” e ser mais que uma bailarina tecnicamente perfeita, é aquela cena em que Aronofsky acompanha uma Nina ainda inocente e virginal pelas costas quando esta entra na Companhia e vislumbra o poster com a estrela que ela substituirá e que se repete, perto do final, em sentido inverso, com a câmara a enquadrar desta vez de frente uma Nina cada vez mais desorientada e o mesmo poster, agora com a fotografia da nova “princesinha”. É, depois, quando na estreia do Lago dos Cisnes é a fazer de Cisne Branco (a parte que, no início, Thomas lhe diz que sabia que ela desempenharia na perfeição) que Nina treme e cai. E é quando naquela cena central em que se consuma finalmente a transformação do branco em negro, é com um espelho que Nina julga matar Lily e acaba por expirar ela mesma, após ter sido perfeita. Darren Aronofsky tem alguma coisa de planeador obsessivo e joga deliberadamente com tudo isto não só como artifício visual (e provável piscar de olhos a Orson Welles e a The Lady from Shanghai), mas também como óbvia representação física de uma gradação psicológica que acontece em crescendo e que explode na cena final e culmina na morte de Nina. Faz lembrar The Wrestler, claro, que também acabava com uma morte, numa cena de antologia. Mas The Wrestler tinha sido, até aí, uma história simples, tocante, só uma filha e um pai à procura de perdão e redenção, sobriamente filmada, sem gordura de qualquer espécie. Black Swan sofre porque tenta ser demasiado grandioso demasiadas vezes. É um exercício virtuoso, sem dúvida: a música de Tchaikovsky é magnífica, como é Natalie Portman (como havia sido Mickey Rourke em The Wrestler). É impressionante a dança da câmara que acompanha a dança de Nina (a fazer lembrar a agilidade da câmara de Raoul Ruiz no superior Mistérios de Lisboa) na sequência final. É, também, um filme eminentemente cinematográfico, deliberadamente construído a pensar na telona e não na telinha, e é um filme dos Oscares com a grande vantagem de não ter sido feito com régua e esquadro para os Oscares. O seu grande problema é, provavelmente, o ego do realizador. É demasiado notório que Aronofsky quer impressionar e, mais do que isso, que fica ele próprio impressionado com o seu trabalho. Momento exemplar? No final, o público d’O Lago dos Cisnes responde em apoteose à prestação de Nina, aplaudindo efusivamente. Fade to white, ficha técnica, e os aplausos continuam. Como se Aronofsky, conscientemente ou não, batesse palmas a si próprio.

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Fábio Jesus às 16:28
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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

Re-Animator

 

Re-Animator (1985) tornou-se filme de culto usando argumentos completamente diferentes. Se Barbarella atingiu esse estatuto principalmente pelo género em que se insere e pelo erotismo explícito e subentendido de Jane Fonda, o filme de Stuart Gordon fá-lo por vias do gore e pelo carácter puramente nauseabundo das imagens e situações (antecipando os Eli Roths, os Saws, os Slumdog Millionaires e as TVIs do século XXI). É um filme sobre (ou com) mortos-vivos, mas não os mortos-vivos de Romero. Nesses filmes a ameaça surge do exterior, incontrolável, e a sobrevivência torna-se o motor da narrativa; aqui, a ressurreição dos mortos é deliberada e tem mão humana. Nesse sentido, Re-Animator tem muito mais a ver com o Frankenstein de Mary Shelley (ou, no cinema, de James Whale, que fazia grandes filmes de terror sem precisar de baldes de sangue e tripas) do que com os filmes da saga of the Dead. Mas Stuart Gordon não é Romero nem Cronenberg. O seu filme aflora os temas essenciais da obra do canadiano (a carne, o sangue, as vísceras e a primariedade do ser humano), mas fica-se por aí. Não é profundo nem pretende sê-lo, embora o seu realizador leve o seu trabalho muito mais a sério que os de outros filmes do género (em especial aqueles dejectos que Hollywood evacua regularmente e que passam “filmes” de “terror”). E é, pelo menos, orgulhosamente B.

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Fábio Jesus às 02:17
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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

A rainha da galáxia

 

Barbarella (1968) parece um daqueles filmes feitos com os olhos postos apenas e exclusivamente no que o futuro pensará de si, mesmo se plenamente consciente de que não será eventualmente vindicado pelo seu valor artístico ou intrinsecamente cinematográfico, à maneira do que aconteceu com Hawks, Hitchcock e outros pela geração Cahiers dos anos 50, mas sim pela sua atracção enquanto pedaço de esquizofrenia camp de tempos idos. Produzido pelo recentemente falecido e saudoso Dino de Laurentiis por provavelmente pouco mais de bagatela e meia, tem ares de desculpa esfarrapada para fazer Jane Fonda pavonear-se semi-nua pelo ecrã durante hora e meia – não que houvesse nada de particularmente errado com isso quando a actriz contava ainda 31 anos –, lançando ocasionalmente um “oh my goodness” cuja inocência contrasta em definitivo com o tom semi-erótico do filme, que arranca com o striptease em gravidade zero da cena inicial e atinge o pleno na inacreditável – e, aparentemente, chocante para as mentalidades dos anos da Guerra do Vietname – cena de tortura por máquina de prazer sexual. Ainda assim, é notável a quantidade de artistas, em especial músicos, que lhe prestaram algum tipo de homenagem: dos Matmos a Samuel Úria, passando pelo caso mais evidente, dos Duran Duran, que importaram o seu nome do do vilão de serviço, Durand-Durand.

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Fábio Jesus às 21:47
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Laughter

 

No grande livro da “história do cinema” o nome de Harry d’Abbadie d’Arrast (1897-1968) é muito mais ignorado do que do que a grandiosidade aristocrática do seu nome faria prever. Figurativa e literalmente, já que tenho por aqui um (grande) livro com “a história do cinema” que ignora completamente o realizador argentino e até a versão em inglês da wikipédia, apesar da sua infinita sapiência, lhe dá o mesmo tratamento. O IMDb, que lhe dedica uma pequena biografia, conta que d’Arrast foi parar a Hollywood por acaso após conhecer um realizador franco-americano num hospital militar em plena Primeira Guerra Mundial, conseguindo eventualmente chegar a assistente de Chaplin em The Gold Rush e tornando-se realizador logo a seguir. Descontente, no entanto, com a ingerência dos produtores nos seus filmes, mudar-se-ia para a Europa onde, fazendo finalmente jus ao nome que os pais muito graciosamente lhe ofereceram, se dedicaria até ao fim da vida ao métier glamoroso de jogar roleta russa no casino de Monte Carlo. Da sua passagem pelos Estados Unidos ficou aquele que é provavelmente o seu filme mais conhecido, Laughter (1930), uma comédia romântica sobre um banqueiro e a sua não-inteiramente-realizada e ex-artista trophy wife que – surpresa! – acaba com uma lição sobre a importância metafórica do “riso” na vida. Filmado inteiramente com câmara fixa, como era apanágio da altura, sem invenções formais, não é um grande filme mas vale principalmente pela sofisticação – pelo padrão do cinema norte-americano dos anos 20 – do argumento e mostra o potencial de d’Arrast num género que entretanto se tornou sinónimo do nome de outro expatriado: Ernst Lubitsch.

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Fábio Jesus às 18:24
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Kaputt

 

O Dan Bejar que eu conhecia era outro: o homem recatado (a julgar pela obra), quase deliberadamente obscuro, que não obstante colaborar com projectos grandiloquentes como o que dá nome a este blogue, fazia a sua música mais pessoal e especial a solo, sob a bandeira Destroyer. Cantava “thou shalt not take place in or make bad art” como se de uma declaração de princípios se tratasse e fazia grandes discos como Streethawk: A Seduction (2001) ou Rubies (2006), pejados de canções memoráveis mas atravessadas por uma escrita críptica e torrencial, que faziam dele um daqueles músicos que quase apostamos poderem passar ao lado de uma carreira mais amplamente divulgada e reconhecida. Até ao aparecimento de um novo Destroyer: aquele que surge em Kaputt a dinamitar (get it?) o estilo anterior e a cavar um novo universo sonoro para si próprio, gloriosamente “desalinhado”, livre de etiquetas e constrangimentos, esparso, mais contido e com laivos electrónicos (Downtown é uma pequena maravilha) que não impedem que soe, ainda assim, completamente pessoal. Seja bem-vindo, senhor Bejar.

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Fábio Jesus às 18:25
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Quatro grandes sites de cinema: Avaxhome; Foreignmoviesddl; Arsenevich; Cinema of the World.

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Fábio Jesus às 17:55
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Gosto, gosto

Deste post. A besteirice de certos comentários de utilizadores em críticas de cinema e quejandas é universal e já merecia um correctivo bem medido.

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Fábio Jesus às 03:58
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Play Misty for Me

 

Ao início julguei que ia sair do primeiro filme de Clint Eastwood um “conto moral” ao estilo dos de Rohmer. Uma estrutura que se assemelha ao “livro de estilo” da série temática do francês – “enquanto o narrador procura uma mulher, encontra outra, que ocupa a sua afecção até que ele encontra a primeira novamente” -, envolvendo o trio de personagens principais, e as cenas junto ao mar de Carmel reminiscentes das de La Collectionneuse, que precede Play Misty for Me por quatro anos, faziam crer que Clint pudesse ter bebido no cinema francês da altura a influência maior do seu primeiro filme. Rapidamente, no entanto, desaparece o moralismo e Rohmer dá lugar a Don Siegel (o verdadeiro "professor" de cinema de Eastwood, aqui simbólica e significativamente presente no seu primeiro papel creditado como actor a fazer de um daqueles barmen que todos gostaríamos de tratar por tu) e a Hitchcock e estes, finalmente, a Clint. O estilo estava ainda em construção, é certo, e faltava-lhe a depuração e o discernimento (a cena com a canção de Roberta Flack é uma pateguice que quase arruína o filme) que viriam com a experiência, mas há já nesta história de obsessão e violência toda uma preocupação estética e temática (a música e, particularmente, o jazz, adquirem desde logo o lugar de destaque que reclamam na obra do realizador) que denuncia e prenuncia o muito e bom que viria a seguir.

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Fábio Jesus às 03:27
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Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

Ainda sobre Bradford Cox

É tudo verdade o que disse em baixo. O ritmo frenou tanto nesta casa que às vezes pergunta-se se vale a pena continuar, ainda que a razão pela qual deixou de haver disponibilidade - que é uma coisa muito diferente de não haver tempo, isso há sempre - seja muito mais precária e temporária do que alguma vez este blogue foi. Mas depois existem personagens como esta que tornam imperativo que este espaço continue aqui, só porque ainda preciso de um sítio para vir dizer, sem amarras, que aqui o Bradford é neste momento o homem mais interessante do mundo. Para já porque o Logos do bom Bradford enquanto Atlas Sound continua a ser o melhor álbum que não é de 2010 que ouvi em 2010 mas dando porrada velha a tudo o resto. E depois porque chega a 2010 e há mais razões para amar este senhor de buraco no peito. Halcyon Digest, dos Deerhunter é a melhor coisinha que os Deerhunter já fizeram. É um percurso interessante este entre Cryptograms, Microcastle e Halcyon Digest (nunca ouvi Turn It Up Faggot, o primeiro da rapaziada). Um percurso que em outras bandas talvez fosse condenável aqui merece todas as palmas. Os Deerhunter estão cada vez mais melódicos, mais clássicos (dentro do possível, vá), mais conscientes do conceito de canção. Tal como o Bradford Cox de Atlas Sound. Para mim Logos, é, mais que tudo, um grande conjunto de canções. Halcyon Digest também é um portentoso conjunto de canções e consigo encontrar alguns paralelismos com o projecto de Cox a solo. Este último é obviamente algo menos concreto, menos cheio. Em Logos quase não se ouve uma guitarra eléctrica. Mas Atlas Sound é coisa de um homem só. Os Deerhunter são uma banda. Halcyon Digest é mais focado (não que o "não foco" de Logos seja mau, bem antes pelo contrário). Começa com Earthquake, a mais etérea das canções que por ali pára e depois temos um conjunto de canções curtas, directas mas não óbvias. O quase embalar de Sailing, a apaixonada e languida de Helicopter (e a novidade de ver uns Deerhunter "queridos"), a clássica Coronado (aquele saxofone é a maior surpresa de sempre depois do clarinete nos The Hold Steady) onde às tantas se ouve laivos do Boss, He Would Have Laughed, música garota ou Memory Boy, canção relâmpago onde, chamem-me louca, consigo descortinar uma vibe beatlesiana. Isto é rock. Ou pop até. Bradford Cox é o maior e enquanto existirem álbuns assim estaremos por cá. Até à próxima.


Lídia Gomes às 11:18
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

Se este blogue continua a existir também é por causa dele


Lídia Gomes às 22:56
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Domingo, 26 de Setembro de 2010

Sobre Freaks and Geeks

Sei que Freaks and Geeks é, essencialmente, um projecto inacabado. E por isso difícil de criticar. Como tanta coisa boa que a audiência americana cancela, a ideia estava lá, mas ninguém a deixou concretizar na sua plenitude. Vejamos, há adolescentes, há o liceu, há pais e amigos e droga e álcool. Mas não há gente bonita, ou demasiado bonita. Não há gente demasiado arranjada, se bem que estamos a falar de uma série ambientada no início dos 80's onde nem a rainha do baile estava bem arranjada, essencialmente por estar sempre demasiado arranjada, com permanentes, ombreiras e essas coisas tão oitenteiras. Em Freaks and Geeks não há rainha do baile. Há baile mas ele interessa pouco. Pode-se dizer que a série, produção de Judd Apatow convém não esquecer, é um retrato mais ou menos verosímil. Ou pelo menos o mais verosímil de todos. E se calhar é esse o seu pecado. Ao contrário do mundo inteiro não fiquei particularmente empolgada com Freaks and Geeks. E acho que o problema são as personagens. Criar ou não empatia com as personagens é meio caminho andado para o sucesso ou não sucesso da ficção, parece-me. Na minha modesta opinião, todas as personagens principais de Freaks and Geeks são chatas. Principalmente os Weir, os jovens, porque os pais é outra história (as lições de moral do Pai Weir são do melhor da série). A sério, aquela Lindsay é chata. Se calhar porque é só uma pessoa normal e por isso é chata. O irmão Sam idem. Depois há as que são só irritantes, tipo o Daniel Desario de James Franco. Acho que a única personagem verdadeiramente empática é o Bill Haverchuck de Martin Starr, feio, sujo, desengonçado, mas genuinamente bom moço (mas que depois tem uma mãe toda grossa, não se percebe). Mas eu sei que se calhar a vida real é mesmo assim, nem todas as pessoas são interessantes, ou têm grandes gostos musicais, ou vestem-se muito bem. Para isso vê-se The OC. Lá há muita gente bonita. Mas Freaks and Geeks também é demasiado plano, ou demasiado literal. 18 episódios dá para muito pouco mas estava à espera de me entreter mais. Freaks and Geeks não chegou a ser bem entretenimento, se calhar estava a caminhar para lá mas não deixaram e assim ficou só algo que poderia vir a ser muito bom.


Lídia Gomes às 12:09
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

Não dançou

Tudo o que vi de Christophe Honoré irritou-me de sobremaneira. Este novo Non Ma Fille, Tu n'irás Pas Danser não foi excepção (ainda assim, grande título). Honoré não é um mau realizador mas é um péssimo contador de estórias. Non Ma Fille, Tu n'irás Pas Danser é um filme que está sempre por resolver. Durante duas horas vemos Lena - Chiara Mastroianni que faz dos filmes de Honoré sempre um bocadinho melhores do que se não estivesse - e a sua família: pais, irmãos, cunhados, ex-marido, filhos. Lena é infeliz mas a sua família não é menos. E porquê? Nunca se sabe muito bem. Lena e a irmã Frédérique dão-se mal, depois dão-se bem. Porquê? Os pais de Lena amam-se mas às vezes odeiam-se. Lena não consegue deixar de estar infeliz, nem com a família a matar-se por lhe sacar um sorriso. E nós nunca sabemos porquê. É como se tudo neste filme andasse por ali a passear, como aquela malta que vai passear o carro a 20 à hora a um Domingo à tarde. A vida é assim? Está bem. Mas isto é cinema e para mim não chega. Desculpem.


Lídia Gomes às 11:31
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Sábado, 18 de Setembro de 2010

Não desistam de nós.

Ainda. A gerência encontra-se em fase de mudança de vida e malas às costas mas promete voltar mais regularmente quando se habituar a tudo isto. Até lá não sei que vos diga. Talvez que o novo dos Superchunk assim à primeira parece estar supimpa e é um dos melhores álbuns dos anos 90 a ver a luz nos anos zero. Vão ouvir este Crossed Wires, e depois perguntem-se, como eu, porque raio é que a Antena 3 em meados dos 90 passava Third Eye Blind e outros que tais e não nos oferecia aqui os senhores Merge.


Lídia Gomes às 11:20
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