Sábado, 25 de Julho de 2009

O homem sem nome

 

(…) Quando cheguei a Itália em 1963, havia em Roma uma verdadeira colónia americana. Encontrávamo-nos na Via Veneto e divertíamo-nos. Ninguém me conhecia. As pessoas que me podiam conhecer eram ingleses ou americanos, que tinham visto “Rawhide”, que na altura ainda não tinha passado na Europa. Era portanto muito simpático ser anónimo e poder treinar observando pessoas que estavam bastante soltas na altura.

Depois parti para Espanha, com Sergio. E no fim da rodagem tive que voltar aos Estados Unidos para retomar a série. Praticamente não voltei a pensar nesta aventura. Ao ponto de me contentar a dizer às pessoas que me falavam dela: “Sim, fiz esse filme”, sem mais. Tinha retomado a minha vida habitual.

Um dia, mais ou menos seis meses depois da rodagem, a revista Variety anunciou em primeira página a morte dos westerns europeus. Eu disse a mim mesmo “Boa! E eu que acabei de fazer um!” Algumas semanas mais tarde a Variety dedicou outro artigo a um western intitulado PER UN PUGNO DI DOLLARI, genial, opinião geral. O título não me dizia muito. O artigo não mencionava a minha existência e durante a rodagem o filme ainda se chamava “Il Magnifico Straniero”, “o estrangeiro magnífico”. Enfim, a Variety publicou um grande artigo sobre este acontecimento: POR UM PUNHADO DE DÓLARES, no papel principal… Clint Eastwood! Foi então que me dei conta que se tratava do filme em que tinha entrado. Dois dias depois, os produtores ligaram-me para saber se queria fazer outro. Não tinha tido nenhuma notícia deles desde a rodagem. Nem uma palavra. Tinham-me esquecido completamente até ao momento em que o filme se revelou um sucesso. No fundo, estavam convencidos que eu não dava nada. Estavam convencidos que o tipo da cigarrilha era demasiado reservado. Não tinham percebido nada do que eu tinha tentado fazer. Mas Sergio tinha percebido perfeitamente. Também não se entendia lá muito bem com os produtores.

 

Clint Eatwood em entrevista a Serge Toubiana e Nicolas Saada (2000). Tradução de Margarida Sousa em Clint Eastwood, Um Homem com Passado (Cinemateca, 2008).

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Fábio Jesus às 20:10
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