Domingo, 26 de Julho de 2009

(continuação)

 

Viagem a Tóquio exemplifica também o estilo único de Ozu – baixa altura de câmara, cortes de 180 graus, virtualmente nenhum movimento de câmara, e planos ligados através de pedaços de espaço sobrepostos. Em cenas de diálogo Ozu recusa afastar-se da personagem que fala; é como se todas as pessoas tivessem o direito de serem ouvidas na totalidade. Outros filmes usam as suas técnicas distintas mais divertidamente, mas aqui ele parece primariamente focado em criar um mundo sereno contra o qual as personalidades das suas personagens se destacam. 

 

A mesma atitude delicada aparece numa recusa em inclinar as escalas. Seria fácil sentimentalizar Shukichi, por exemplo, mas quando ele regressa bêbado, cambaleando, do seu reencontro, Shige comenta que ele voltou aos velhos hábitos. Fica implícito que as suas bebedeiras outrora causaram problemas familiares. (Isto tem ressonância após a morte de Tomi: “Se eu soubesse que as coisas chegariam a este ponto, teria sido mais amável com ela.”) A bondosa Noriko confessa esquecer-se ocasionalmente do marido morto, medindo-se contra um padrão cruelmente alto. Da mesma forma, a maior parte dos irmãos não são profundamente egoístas, apenas ocupados e embrenhados na vida que criaram para si próprios. Mesmo Shige, que a audiência Ocidental é inclinada a condenar, surpreende-nos com o seu súbito, copioso, profundamente sincero ataque de lágrimas aquando da morte da mãe; e os seus traços mais severos são mitigados pelo facto de ela ser interpretada por Haruko Sugimura, uma das mais adoradas actrizes do Japão.       

 

Graças ao compassivo distanciamento de Ozu, as cenas finais contêm uma enorme riqueza emocional enquanto vemos as personagens contemplarem os seus futuros. Noriko, sorridente, diz a Kyoko que “a vida é desapontante”; Shukichi assegura a Noriko que esta deve voltar a casar; a vizinha avisa jovialmente Shukichi que agora ele estará sozinho. Mas as importantes revelações são temperadas pela ressonância poética de acções e objectos quotidianos. Shukuchi contempla um belo nascer do Sol – significando um novo dia vigorosamente cuidado de quimonos. Um vulgar relógio de pulso liga mãe, filha e genra numa linhagem de sabedoria feminina ganha com esforço. E o rugido de um comboio vai morrendo, deixando apenas a vibração de um barco na baía.   

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Fábio Jesus às 18:26
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