Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

Começa a roçar o ridículo a espécie de batalha campestre “António-Pedro Vasconcelos contra o mundo” que desde há um mês vem ocupando páginas do Ípsilon e que atingiu o estádio de “vale-tudo” na edição de ontem do Público. Compreende-se até certo ponto o grito de revolta disfarçado de crónica com que Vasco Câmara “respondeu” a uma entrevista de APV ao Ípsilon de 29 de Janeiro, texto obviamente polarizador mas cheio de questões e acusações bastante lógicas (é claro que não vai nem pode haver “um Clint Eastwood” português, mas se APV está assim tão convencido de que é essa a via para unir o cinema português ao grande público, por que não se esforça ele, que tem os tais subsídios que fazem falta a muita gente, por fazer filmes mais como os de Eastwood e menos como as telenovelas de Tozé Martinho?), e compreende-se também o “direito à resposta” que motivou a crónica do próprio APV na edição seguinte (embora não lhe fique nada bem o caminho do insulto barato à Bruno Nogueira – vide affair Slumdog – que escolheu para, mais que defender o seu ponto de vista, tentar desacreditar o de VC). O que não se compreende mesmo nada é que o Público não deixe a coisa por aí e permita que, no Ípsilon de ontem, surja uma crónica de Pedro Borges, “editor e produtor de filmes”, que, para além de vir completamente a despropósito e acrescentar muito pouco (“A Bela e o Paparazzo” fez pouco dinheiro, ok), está carregada do tipo de populismo manipulador e bacoco (dos três pontos de interrogação seguidos de três pontos de exclamação para demonstrar o “ultraje” àquele pedaço histérico sobre sair da sala e falar com o projeccionista porque “já lá ia quase uma hora e continuavam a passar anúncios”) que é precisamente um dos grandes problemas dos filmes de APV. Pedro Borges parece-me um senhor com bom gosto – é óptima a lista de filmes portugueses que apresenta como prova de que é no mínimo estranho um cineasta que um dia defendeu Rossellini e Godard afirmar que “A Canção de Lisboa” é o seu filme português favorito) – mas o seu texto não vem fazer serviço nenhum e limita-se a atirar achas para uma fogueira que teve piada enquanto ficou remetida (nas páginas do jornal) aos dois boxeurs no ringue mas que agora extravasou para uma rixa de rua que não interessa a ninguém e que só serve para manchar as páginas do jornal.


Fábio Jesus às 22:20
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