Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Treme

O trabalho de câmera de David Simon está lá, pois claro. Tudo menos certa, desfocada aqui e ali porque ela está ali para servir, não para ser servida. Anda ao sabor da confusão das ruas e não o contrário. Mas a bandidagem agora é outra, já não tem armas, tem trombones, trompetes, saxofones ainda que não tenha casa, ou a sua casa seja um amontoado de lama e destroços. O que interessa é a música, curioso quando em The Wire ela era deitada fora (afinal de contas quem na vida real num momento de dor ou reflexão ouviu um pianinho ou um desses sucessos das playlists?) e só fazia sentido no ambiente, quer fosse nos potentes bólides da malta do tráfico ou no ocasional I'm a Free Born Man of The USA. Treme transpira música porque é uma série sobre música. Ela está ali nas paradas, nos concertos, porque a vida daquelas gentes é aquilo; até naquele aparente "acrescento", um Buona Sera (que tema, meu deus) em jeito de clip, ele não está ali para acentuar nada, para servir a acção ou coisa que o valha, ele está ali porque naquele momento estamos a ouvir uma rádio de New Orleans. Há uma questão que fica depois do primeiro episódio: há aqui uma tomada de posição? Em The Wire, Simon nunca julgou ninguém, herança do seu passado como jornalista talvez, mas aqui parece disposto a fazê-lo. Tomar uma posição sem cair no moralismo populacho e incondicional não é pêra doce, mas é David Simon, não vamos ser pessimistas. Afinal de contas estou em pulgas para o próximo Domingo e tenho a certeza que assim irei ficar para o outro e depois para o outro e para o outro. Treme é uma série de gente excessiva, obstinada, apaixonada - às vezes em demasia, olhem bem para o Davis McAlary de Steve Zahn, a pisar os territórios da besta quadrada mas, caraças, não é assim o amor? - e acompanhar uma série assim é um privilégio. É uma carta de amor não a New Orleans mas às gentes de New Orleans. Três meses depois do furacão. E depois não é televisão, é HBO.


Lídia Gomes às 11:36
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1 comentário:
De João Ruivo a 6 de Maio de 2010 às 21:54
"E depois não é televisão, é HBO."
Não teria dito melhor!

Acompanho Treme com imenso prazer, não só como fã de David Simon (The Wire é a minha série favorita de sempre) mas também como um fã de música em geral e da mística de Nova Orleães em particular. Tenho imensa curiosidade de ver que direcção seguirá Treme precisamente por ser tão distinta de The Wire.

David Simon é um mestre, entrego-me ao seu trabalho com toda a confiança de satisfação.


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