Segunda-feira, 17 de Maio de 2010

TNT

Quis a divina providência que visse o Zabriskie Point no momento exacto. Nem mais cedo e, tenho a certeza, nem mais tarde. Era agora. Uma questão de partilha com aqueles personagens. Tudo ali tem que se lhe diga, desde o Mark Frechette bressoniano, a câmera supersónica preocupada com os pormenores dos tempos que se vivem, tão americanos que ninguém diria que é um italiano que está lá atrás, até àquele momento The Man Who Shot Liberty Valance. E as cores da Califórnia da contra-cultura. Zabriskie Point é a contra-cultura dos 60's como ela deve ser contada, ali tão bem explicada naqueles dois putos, aqueles putos da minha idade, explicada sem necessidade de grandes explicações na verdade, só gestos, acções, cores, naqueles anos em que a fuga era um Buick roubado a rolar pelo deserto e não uma caixa de ansiolíticos. E aquele final, meu deus, de rir às lágrimas, tão bom se conseguíssemos rebentar assim as pessoas, os sítios, os substantivos abstractos só com a força da vontade e do olhar. Ainda assim tão inverosímil, graciosamente inverosímil mas inverosímil, como se o capitalismo mais entranhado fosse assim facilmente dinamitável. Na verdade era só um desejo daquela rapariga, um desejo e nada mais e por isso mesmo é que tem piada. Somos todos um bocadinho burgueses, demasiado reféns do capitalismo para acharmos piada àquela casa-conceito realmente explodir. Mas ainda gostamos e sorrimos de emoção com os desejos dos outros. Hipocrisia, talvez. Cobardia, muita. Algo assim. O que interessa é que Zabriskie Point é o filme que todos os que acham que o The Dreamers é do catano devem ver para se sentirem um bocadinho ridículos.

tags:

Lídia Gomes às 14:19
link | comentar | favoritos
4 comentários:
De martinho a 17 de Maio de 2010 às 15:25
oh ié.


De Back Room a 17 de Maio de 2010 às 19:51
Falei do filme aqui:
http://cameloleaoecrianca.blogspot.com/2010/05/zabriskie-point.html

Gosto da forma como escreves mas olha, continuo a considerar o The Dreamers um "filme do catano". São retratos completamente diferentes da contracultura. Diferentes em perspectiva, diferentes no local e diferentes em espírito.


De Lídia Gomes a 17 de Maio de 2010 às 20:21
Sim, concordo quando dizes que o The Dreamers é um retrato diferente, até por questões geográficas. Mas agrada-me bastante mais esta abordagem, menos palavrosa, menos apostada a querer chocar a todo o custo, mais sincera e subtil. Isto na minha modesta opinião. Bom texto também o teu.


De vivere in spagna a 8 de Junho de 2010 às 10:37
Parabéns pelo seu blog, muito bom!


Comentar post

▪ os pornógrafos

▪ pesquisar

 

▪ Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

▪ posts recentes

Maio

Apichatpong, dois

As quatro voltas

Apichatpong, um

Simpatias

Filmes difíceis

O adeus televisivo de uma...

Black Swan

Re-Animator

A rainha da galáxia

▪ tags

1982(1)

1985(1)

1989(1)

2004(3)

2006(11)

2007(67)

2008(75)

2009(46)

2010(8)

2011(1)

a música é a mãe de todos os vícios(16)

a música é mãe de todos os vícios(1)

apartes(3)

arte(2)

artwork(2)

cinema(190)

concertos(25)

críticas cinema(8)

críticas literatura(1)

críticas música(1)

efemérides(1)

entrevista(1)

festivais(2)

fotografia(1)

literatura(11)

momentos "saduf! muito bom!"(9)

música(231)

musica(1)

notícias cinema(1)

notícias música(7)

notícias televisão(3)

obituário(2)

off-topic(8)

pintura(2)

promessas(2)

quem escreve assim não é gago(7)

revistas(1)

televisão(101)

tops(7)

velhas pornografias(3)

videojogos(3)

todas as tags

▪ links

free tracking

▪ subscrever feeds