Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Líbano e os filmes de guerra

Não estava preparada para a violência de Líbano. Estava preparada para um filme forte - aliás, mas que filme de guerra nasceu para não ser forte? - mas nada tão gráfico, tão visceral, tão sujo. Aquele periscópio, a continuidade do olho receoso de Shmulik, vê a brutalidade e a não-razoabilidade do homem, essas características tão bélicas, porque um homem na guerra dificilmente é um homem, é um animal e aquela câmara subjectiva, a câmara subjectiva omnipresente, não tem contemplações. Choca, moí. E não são o sangue e as vísceras. São os olhos das pessoas. E as palavras, como que se na guerra a única língua possível fosse o ferro e o fogo. Que não haja grandes dúvidas: o filme de Samuel Maoz transpira de forma horrivelmente certeira o sentimento de guerra. E é isso que o torna um grande filme, esse desconforto agarrado ao corpo com que se sai da sala.

 

Curioso é o exercício de comparar Líbano a Estado de Guerra. São dois filmes de guerra, dois grandes filmes, e pouco ou nada têm a ver. Ao contrário de Estado de Guerra, Líbano não tem tempo nem lugar. É um filme de guerra, sobre a guerra. Estado de Guerra só se podia passar no Iraque. A culpa é dos espaços. Aquele espaço aberto, imprevisível, longe daquele tanque entrincheirado. Mas o ar é o mesmo: irrespirável. Não sei qual dos dois terá mais valor. De um lado a guerra latente mas nunca absolutamente atirada aos olhos. O filme de Bigelow é de uma contenção admirável e aí assenta grande parte da sua qualidade. Já o filme israelita caminha em gelo fino. Não sei até que ponto algumas das imagens não ultrapassam a barreira do "bom gosto", mas se calhar a guerra é isso mesmo e é isto mesmo que temos de ver. Afinal de contas o homem esteve lá. Dos dois pelo menos uma coisa: depois deles não há como não perceber o que é o síndrome pós-traumático.

tags:

Lídia Gomes às 23:43
link | comentar | favoritos

▪ os pornógrafos

▪ pesquisar

 

▪ posts recentes

Maio

Apichatpong, dois

As quatro voltas

Apichatpong, um

Simpatias

Filmes difíceis

O adeus televisivo de uma...

Black Swan

Re-Animator

A rainha da galáxia

▪ arquivos

Junho 2011

Maio 2011

Fevereiro 2011

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

▪ links

free tracking

▪ subscrever feeds