Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Os do ano passado, de há uns meses, todos de agora

Não há obrigações académicas que nunca acabem nem reclusão cultural que sempre dure. Este blogue anda ao sabor da vida profissional dos seus pais e isso nota-se. Mas já estamos em Julho, só pode melhorar. E felizmente ainda se pode ouvir música no caminho casa-faculdade, como quem diz no 6 para os Hospitais da Universidade, pelo menos até à sua paragem mesmo em frente às monumentais e durante a sua sempre heróica subida. Isto para dizer que ando com três álbuns na cabeça. Um deles anda na minha cabeça desde Dezembro do ano passado porque o sonho adolescente dos Beach House apaixona qualquer um. A nossa relação entretanto evoluiu, agora é amor. Arrisco-me a afirmar que é a minha mais estável relação em muito tempo. Antes só amava a parte, um Silver Soul, particularmente um Take Care. Agora o amor é total. Começa na primeira guitarra rendilhada de Zebra e acaba no divino sussurro de Victoria Legrand na melhor música que este ano já pariu, Take Care, pois claro. E pelo meio é tudo maravilhoso. Só meses depois os pormenores saltam todos, desvendam-se, entram pelos ouvidos, acomodam-se e de lá nunca mais saem. Já repararam na quantidade de momentos que Lover Of Mine tem? E todos ligados por aquela onda marota, sexy p'ra caraças. Marota mas com classe, atenção. E aquela mudança de tom no final de Walk In The Park? É de escangalhar uma pessoa. E Real Love, que eu passava sempre à frente e que é piano feito coração a bater (boom, boom, boom, é Victoria Legrand que o diz). Enfim, Teen Dream mata-me. Do início ao fim.

 

Bom também é Logos de Atlas Sound, Bradford Cox, escolham, o melhor álbum de 2009 que só descobri em 2010. Não gosto absolutamente de tudo em Logos, ainda sou mais melódica que experimentalista. Mas o que gosto, gosto muito. Desde a mais bela música de amor feita por um tipo com síndrome de Marfan, Shelia, porque ninguém quer morrer sozinho, passando pela guitarra alegre de Criminals (aliás, a guitarra clássica é o melhor de tudo em Logos) e o temaço que é Walkabout, o tal dueto com o Panda Bear, uma maravilha pueril e acabando na quase sensual Attic Lights, pejada de languidez, tão indolente quanto este calor mole que vai fazendo por estes dias.

 

E por estes dias a grande sensação é mesmo essa manta de retalhos fabulosa que é Before Today, provavelmente o primeiro álbum "a sério" dos (ou do, sei lá, afinal de contas nem sei bem se isto é uma entidade colectiva) Ariel Pink's Haunted Graffiti. A sério, é incrível. Já lá vi de tudo, desde Michael Jackson, Joy Division, Earth Wind and Fire, disco chunga e rock cabeludo dos anos 80, rock mais luminoso dos 70, surf rock ou o caraças, soul melosa, enfim, uma miríade de coisas à partida nada conciliáveis mas que às tantas são e depois, la pièce de résistance, tudo escarrado de uma baixa-fidelidade deliciosa, ainda assim muito mais alta do que qualquer coisa que Ariel Pink já tenha feito. Que ainda por cima não canta muito bem. O que só melhora a coisa, note-se. Before Today é, numa palavra, desconcertante. E quantos álbuns hoje podem gabar-se disso?


Lídia Gomes às 23:07
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