Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Apichatpong, dois

 

Há tempos ouvi o Francisco José Viegas a falar sobre sexo na literatura. Dizia ele que preferia o sexo inferido ao sexo contado, em especial àquele descrito com a subtileza de um gajo perante um bolo de chocolate ao fim de um mês de dieta. Referia-se em especial a uma passagem de Transa Atlântica, de Mónica Marques, que considerava exemplar: o casal (o par?) chegava a casa, dirigia-se ao quarto, trancava a porta e a elipse que se seguia dizia-nos tudo o que havia para dizer. Na literatura descreve-se, mas no cinema mostra-se, e a ter que haver sexo, todo ele devia ser filmado como em Blissfully Yours (Sud Sanaeha), despudoradamente, honestamente, carnalmente, respeitando as durações, sem resvalar do cinema para a pornografia mesmo quando a protagonista acaricia o pénis do companheiro, despreocupadamente, só porque sim, enquanto ele dorme. Em Blissfully Yours infere-se muita coisa, particularmente na segunda metade (que se tornou mais ou menos famosa por se seguir a um genérico que surge uns bons 45 minutos após o início do filme), mas mostra-se o sexo. O resto é um filme de uma notável economia, um conto de fadas na floresta que faz lembrar Malick e, especialmente, Rohmer, não pela palavra (que escasseia) mas pela espécie de bolha fora de qualquer realidade que as três personagens habitam temporariamente, naquela tarde longe de tudo, e que também lá está nas aventuras “campestres” do francês, e em particular no fabuloso Le Genou de Claire. É também, e em especial após Mysterious Object at Noon, um filme mais conciso, mais linear – a primeira parte é quase, como li algures, expositiva – sem deixar nunca de ser maravilhosamente estranho (ouça-se o pop tailandês que surgem de vez em quando, momentos de estranheza num filme em que há poucos diálogos e em que a banda-sonora é o som da natureza), misterioso e belíssimo.

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Fábio Jesus às 12:33
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