Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

De lata

Slumdog Millionaire, parece-me, é um filme vulgaríssimo, de um simplismo aberrante e redundante em ideias e execução, disfarçado sob aquele manto de filme globalizado e globalizante (a primeira obra-prima globalizada do mundo, não é?) que não é uma coisa nem outra. Interessa-me pouco a visão do mundo de Boyle, interessa-me pouco a imagem que o filme transmite da Índia dos nossos dias, interessa-me pouco até aquilo que o realizador cheirou ou deixou de cheirar, porque cinema não é jornalismo e se até o documentário é um género essencialmente falso não será a ficção a apresentar sem parcialidade o estado de coisas; sobre isso tenho apenas a dizer que um filme de Hollywood filmado na Índia por um realizador inglês com elenco indiano e pozinhos de Bollywood não deixa de ser um filme de Hollywood. Fazendo a devida dissociação, o que sobra é um objecto fraco, de consumo imediato, abjecto em termos criativos. Espanta-me, sobretudo, ter sido este o filme a levantar a poeira que levantou naquela questão sempre à beira do ponto de ebulição da orientação da crítica portuguesa de cinema (mesmo que suspeite que muito desse alarido tenha derivado do uso do vocábulo merda na crítica de Luís Miguel Oliveira). Mas adiante: o filme ficou com oito Óscares, a discussão esmoreceu e não houve vítimas mortais. Venha o próximo.

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Fábio Jesus às 21:53
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

O maior espectáculo do mundo

A música ao vivo pode ter poderes transcendentes. Afinal, o estúdio nem sempre consegue captar todas as potencialidades sensoriais que os sons concertados podem ter. E é por isso mesmo que existem os concertos. Já vi concertos de uma vida. Arcade Fire e The National à cabeça. Mas nunca tinha visto um espectáculo como o que a norte-americana Amanda Palmer presenteou Madrid, no último dia 14, na Sala Caracol. Espectáculo porque um concerto de Amanda Palmer é muito mais do que música. Acontece um pouco de tudo: há teatro, há dança, há pensamentos soltos (não confundir com filosofia barata), até stand-up comedy.  Há peditórios ao público(!) que, não poucas vezes, é tão protagonista como quem está lá em cima.

 

Musicalmente o espectáculo foi sem mácula. O alinhamento passou pelos melhores momentos de Who Killed Amanda Palmer? (WKAM?), com o início explosivo de Astronaut seguido da melancolia de Ampersand. Na passagem obrigatória pela segunda vida (ou primeira?) de Palmer, os Dresden Dolls, com destaque para esse músicão que é Coin-Operated Boy, ouviram-se os primeiros sing-alongs do público. Já a extraordinariamente gráfica Oasis fez mexer muito corpo antes do momento anti-climático (se assim lhe poderemos chamar) do espectáculo, uma Strenght Through Music dedicada às vítimas de Columbine seguida desse rolo compressor que é Have To Drive onde o bambulear cénico da Danger Ensemble por entre um público pouco habituado a tamanha interacção, fez verter algumas lágrimas na Sala Caracol. Mas como um espectáculo (e sim, vou continuar a escrever espectáculo) de Amanda Palmer é o mais parecido a uma montanha-russa emocional que se pode assistir, o final alucinante ofereceu um playback quase barroco de Umbrella capaz de provocar dores abdominais tal a cómica bizarrice alarve que se passava naquele palco (com direito a saliva), um primeiro encore com o single por excelência de WKAM?, essa festa que é Leeds United, e, quando eu já colocava em causa o meu top de concertos favoritos, Amanda Palmer surge, sozinha, envergando a sua guitarrinha de brincar, irrompe por entre o público, rouba uma cerveja no bar, sobe para o balcão e canta um pungente Creep dos Radiohead, com a assistência a responder em comunhão. E as minhas dúvidas morreram alí.

 

Amanda Palmer, essa, é uma artista em todos os sentidos. Virtuosa no piano, marioneta-auto-conduzida nos movimentos, andrógena e bizarra na teatralidade, afável mas crua no trato. A ladea-la, uma The Danger Ensemble, grupo de artes cénicas cheio de outras artes que distribuiu emoções, beijos e abraços. Foram eles que tornaram o espectáculo tão humano, tão palpável. Pena esta tour não ter passado por terras lusas. Visceral como só o público português sabe ser, um happening destes, com uma interactividade tão grande, ficaria na história. Porque foi o maior espectáculo do mundo. A sério.


Lídia Gomes às 20:05
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

It never stops

Deerhunter no Lux a 1 de Junho.


Fábio Jesus às 16:31
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O método

Pitchfork: One thing I really like about how you guys work is you really churn records. You've put out three records in three calendar years. Some articles have made it seem like you guys are suddenly blowing up, but you don't do the typical indie rock three-years-between-records thing where you slowly ascend to a particular level; you cut that down into fractions.
Craig Finn: Yeah, well one thing about making records all the time: I work at the Orchard, and I know something about digital music. People are consuming music quicker. I think you have to have music coming out. The other thing is that if you make a record every year, it takes some pressure off you. You don't have to make your fucking masterpiece every time because you're not waiting three years to build it up. It's like, "Well, we got more songs; want to hear them?" We write quickly. We have a process that works. [Guitarist] Tad [Kubler] generates these riffs, and I have these words that I write in books, so there's never a shortage of material. If we needed to write a song, we could probably go do it right now.

Pitchfork: But at the same time, I don't know if you guys write it like this, but you're doing these sprawling album-albums.
Craig Finn: Well, that's part of the lyrics, part of the way I structure it. It's a method. When I wrote Separation Sunday, I had stuff taped up all over my walls, drawing arrows, trying to envision the whole thing. This time, I moved into this place, put a mattress on the floor, bought a laptop, and taped up this quote from Kerouac: "Boys and Girls in America have such a sad time together." And then there's more to it than that. It says, like, "Sophistication demands they go straight to sex without proper talk and not talk about courtship but real talk about souls." I taped that up, and then I took a look at it when I was stuck. And that's how I got it all. It's just coming at things from different angles.

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Fábio Jesus às 15:55
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O plano

É esta, porventura, a cena de argumentista de Hunger, e o texto é notável. Mas é Steve McQueen que a torna brutal e memorável. Deixar assim a câmara, abandonada, sozinha durante dezassete minutos, frente a dois actores, uma mesa e um maço de cigarros, é coisa de quem sabe o que quer e não faz concessões. Há que tirar o chapéu, claro, a quem ainda tem coragem de fazer uma coisa destas.

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Fábio Jesus às 20:35
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Artwork (4)

14 de Abril é a data de lançamento de It's Blitz! (sim, com ponto de exclamação incluído) o filho mais novo dos Yeah Yeah Yeahs. Se o que está por dentro for tão bom como o que está por fora (gráfico, ou seja, YYY's q.b) temos álbum, pois!


Lídia Gomes às 15:15
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Bigodes...

... e a curiosidade em saber o que vale este senhor sozinho.

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Lídia Gomes às 23:56
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Os sete anões

Visto o filme (obrigado RTP2, apesar de tudo), percebo finalmente a primeira questão da entrevista da mais recente edição da Cinema Scope. Que caralho é A Cara que Mereces? Uma comédia musical – espécie de derivado dos Spinal Tap e, portanto, precursor espiritual de Flight of the Conchords, se me permitem tão desfasada aproximação – sobre a crise de chegar aos 30 e sobre regras que se cumprem até se quebrarem, diz o realizador. Num sentido, um conto de fadas, com direito a lição no fim, como The Wizard of Oz ou os filmes da Disney. Mas mais realista na sua fantasia que mil Casos da Vida e sucedâneos, digo eu. Miguel Gomes é caso sério.


Fábio Jesus às 22:49
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Exercício circular

Ler esta crítica (e respectivos comentários), saltar para este post (já tive oportunidade de referir-me, em tom satírico, ao paladinismo – vocábulo que penso não existir, embora faça falta – de João Lopes, mas neste caso parece-me ter toda a razão), (re) ler esta entrevista (um pouco de auto-publicidade, e porque não?) e voltar à crítica inicial. Défice democrático.

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Fábio Jesus às 22:08
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Aquela elegância de estética que só os orientais têm

 Bin-Jip (2004), de Kim Ki-Duk

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Lídia Gomes às 12:32
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Serviços académicos


Film 105
Instructor: Linda Williams
W: 3:00pm - 6:00pm, 226 Dwinelle
Enrollment limited to 20

Discerning critics and avid fans have agreed that the five-season run of Ed Burns and David Simon’s The Wire was “the best TV show ever broadcast in America”--not the most popular but the best. The 60 hours that comprise this episodic series have been aptly been compared to Dickens, Balzac, Dreiser and Greek Tragedy. These comparisons attempt to get at the richly textured complexity of the work, its depth, its bleak tapestry of an American city and its diverse social stratifications. Yet none of these comparisons quite nails what it is that made this the most compelling “show” on TV and better than many of the best movies. This class will explore these comparisons, analyze episodes from the first, third, fourth and fifth seasons and try to discover what was and is so great about The Wire. We will screen as much of the series as we can during our mandatory screening sessions and approach it through the following lenses: the other writing of David Simon, including his journalism, an exemplary Greek Tragedy, Dickens’ Bleak House and/or parts of Balzac’s Human Comedy. We will also consider the formal tradition of episodic television.

Please come to the first class having already viewed all of season one on your own. It is available at the MRC.

Requirements:

One orally delivered book report; one sequence analysis; one short paper (6 pages); one final paper (12 pages).

Readings may include: Aeschylus, The Oresteia,
Theodore Dreiser An American Tragedy,
Richard Price, Clockers
Charles Dickens, Bleak House
A Course Reader of essays on The Wire 


Fábio Jesus às 00:25
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