Terça-feira, 31 de Maio de 2011

As quatro voltas

 

Le Quattro Volte é outro exemplo arquetípico daquilo que certa crítica convencionou ser um filme que “não é para toda a gente”. Como se houvesse filmes para toda a gente. Le Quattro Volte é, essencialmente, um filme mudo cuja grande força é dar a ilusão de nada se passar quando se passa tudo. A única linha de diálogo minimamente discernível, se a memória não me trai, é um frágil “grazie” que o velho pastor solta a dado instante como agradecimento pelo pó “sagrado” de chão da igreja que ele julga curá-lo da maleita que o aflige (e que fica, como muita coisa no filme, por nomear). Frammartino desloca-se com flair entre a ficção e o documentário e, se a dada altura pensamos que a miséria daquele homem – que ilusoriamente nos parece o único resquício de protagonista que o filme tem até morrer a meio para ceder o seu lugar proeminente àquelas imensas cabras, que eventualmente também elas desaparecem para não voltar mais; este é um filme recheado de momentos fugazes – e a outra, à volta dele, naquela aldeia calabresa perdida no tempo, é demasiado verdadeira para ser ficcionada, noutra uma cabra sobe a uma mesa e pontapeia uma panela de tal forma que a impressão com que ficamos é que aquilo só pode ter surgido com aquela naturalidade ao milésimo take. Numa cena central, dois movimentos de câmara contam-nos o filme: um plano elevado mostra um miúdo a brincar com um cão em frente à vedação que prende o rebanho e uma carrinha parada numa estrada inclinada, perpendicular à vedação; subitamente, os travões cedem e a carrinha começa a deslizar. Ao mesmo tempo, o miúdo começa a correr para fora do plano. Sabemos que a carrinha vai destruir a vedação, e há um instante em que pensamos que este será o momento “espectacular” do filme. Frammartino, no entanto, opta por seguir o miúdo: a câmara roda para a direita e ouve-se o estrondo em off. Quando, um instante depois, a câmara faz o movimento inverso e volta ao enquadramento inicial, as cabras ocupam toda a estrada e invadem a casa do pastor, que na cama definha. Fica tudo dito, ali, assim.

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Fábio Jesus às 01:33
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Apichatpong, um

O que dizer sobre o primeiro filme de Apichatpong Weerasethakul? Se me quisesse armar em engraçadote diria que Dokfa nai Meuman (Mysterious Object at Noon) é um objecto misterioso ao meio-dia e a qualquer outra hora do dia, mas não vou fazer isso. Mysterious Object at Noon vê-se como uma anti-tese (não confundir com antítese); como se o realizador – que estudou cinema nos Estados Unidos – tivesse chegado ao fim do curso, feito as malas, pegado no manual e, zéro de conduite, decidido fazer o oposto daquilo que os ditames do cinema narrativo lhe ordenavam. Objecto fascinante, e, sim, misterioso (hah!), pelo espectacular pontapé em qualquer gramática mais ou menos convencional que dá a cada instante. Não percebemos nada, mas percebemos ao tailandês a vontade de fazer cinema. O statement está feito.

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Fábio Jesus às 01:12
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