Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Dylans



Por esta altura, já todos sabem aquilo em que Todd Haynes transformou a sua ideia de fazer um biopic sobre o singular Bob Dylan: uma desconstrução da vida do popular cantor/letrista, dividindo as suas múltiplas personas e criando um filme de retalhos, se assim lhe podemos chamar, que desafia as regras do género sobrelotado e algo amorfo do filme biográfico, reinventando-o. São seis os actores, nos quais se incluem uma mulher e um miúdo afro-americano, usados para interpretar seis fases distintas da vida de Dylan, embora estes encarnem personagens – a estrela em negação para com o passado, o jovem sonhador, o actor em declínio e até o lendário Billy the Kid – que não têm qualquer ligação com a pessoa que representam; o nome Bob Dylan, aliás, não é proferido uma única vez ao longo de toda a película.


O produto final da ideia de Haynes chama-se I’m Not There e é uma obra fascinante, ainda que não completamente bem sucedida. Há momentos em que a ambição do realizador se confunde com pretensiosismo, o ritmo oscila e o filme, pura e simplesmente, não funciona. Há momentos em que nos acostumamos a uma das personagens, simpatizamos com ela e subitamente ela desaparece para dar lugar a outra, à qual temos novamente que nos habituar. O mais frustrante, no entanto, é que o filme não faz, nem dá a sensação de se esforçar para fazer muito sentido. I’m Not There aparenta ter sido feito sob o efeito de alucinogénios, mas na verdade foi meticulosamente planeado e montado com cuidado, resultando numa experiência que, à falta de melhores palavras, pode ser descrita como hipnótica.


I’m Not There beneficiará, não duvido, de múltiplas visualizações: é quase impossível, à primeira, apreender tudo aquilo que o filme tem para oferecer. Fãs inveterados de Dylan decifrarão com mais facilidade o que cada segmento oferece e aquilo que representa; os outros podem simplesmente relaxar e deleitar-se com a excelente música, a elevada qualidade das interpretações (Cate Blanchett, meus senhores, Cate Blanchett!) ou a realização superior, plena de simetrias e tecnicalidades deliciosas. I’m Not There não é nem tenta ser um filme fácil, mas é um que recompensa a audiência mais persistente, e concerteza não deixará ninguém indiferente.

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Fábio Jesus às 21:28
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3 comentários:
De H. a 27 de Dezembro de 2007 às 13:36
mas... já o viram?


De Fábio Jesus a 28 de Dezembro de 2007 às 00:55
Sim, vi-o na semana passada. Não estava para esperar por uma estreia nacional que nem tem ainda data marcada.

Belo - ainda que difícil - filme :).


De Tity_Gurl a 24 de Janeiro de 2008 às 01:54
COMUNA! FECHA A FOSSA!!!


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