Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Beleza americana



Adiei e adiei a descoberta do terceiro disco dos norte-americanos The Hold Steady, o muito adequadamente intitulado Boys and Girls in America, cujo lançamento já data de Outubro de 2006. Lembrei-me (lembraram-me) de lhe dar uma oportunidade, nos primeiros dias do ano, e a coisa colou-se de tal forma a mim que tenho andado com dificuldades em ouvir qualquer outra coisa. Não há maneira de não gostar de um álbum que começa com um cínico There are nights when i think that Sal Paradise was right/Boys and girls in america have such a sad time together e termina (mais ou menos) com um piscar de olho a John Darnielle e aos seus Mountain Goats e (a sério) com uma cover dos Violent Femmes. Pelo meio, há espaço para o never mind the bollocks de You Can Make Him Like You e o relax a três vozes de Chillout Tent e há uma faixa chamada Chips Ahoy!. E Massive Nights é uma daquelas músicas que me deixam descontente por a palavra “antémico” não fazer parte do nosso dicionário.


É fácil catalogar Craig Finn como pertencente àquele restrito grupo de vocalistas (Dylan vem-me imediatamente à cabeça) que usam a música como veículo para uma capacidade poética superior. Finn conta histórias, desdobra-se em referências, cria personagens e torna-as recorrentes e é um retratista (da juventude norte-americana, aqui) de uma acutilância singular. E obriga-nos a acreditar no que diz como se a nossa vida dependesse disso. A voz dá o toque final: diz a Blender que eles “soam como a melhor banda de bar do mundo”, e não podiam estar mais certos. Mas esta é uma banda de bar de um campeonato muito diferente: o dos primeiros.


Por cá, longe das vocações stokerianas da co-autora aqui do estaminé, tenho que dizer que Boys and Girls in America foi o primeiro grande álbum que ouvi em 2008. E que estes cinco tipos de Brooklyn com ar despreocupado andam a fazer alguma da mais grandiosamente cerebral música da actualidade.

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Fábio Jesus às 18:39
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

São Paulo



Eles foram responsáveis por um dos melhores e mais consistentes concertos do último Sudoeste, mas isso não foi infelizmente suficiente para lhes aumentar a (escassa) popularidade no nosso país. Isto porque, num Mundo perfeito, Made Up Love Song #43 dominaria as tabelas de singles e certas músicas de certas bandas saídas de certos programas da TVI seriam apenas sombra da popularidade de Trains to Brazil.


Liderados por Fyfe Dangerfield, os Guillemots entraram de rompante no panorama musical britânico no ano passado com Through the Windowpane, um desequilibrado mas fascinante álbum de estreia, pleno de uma harmonia musical e de uma elegância estética que contrastam com grande parte das propostas que irrompem quase diariamente do nicho de revivalismo pós-punk do Reino Unido. São Paulo, a épica faixa que fecha o álbum, é verdadeiramente digna de registo, dona de picos emocionais e oscilações melódicas das quais poucas bandas se podem orgulhar numa carreira, quanto mais num primeiro disco. E só não foi a melhor música de 12 minutos de 2006 porque Joanna Newsom teve a feliz ideia de nos brindar com esse doce de folk hiper-literato que é Emily.   

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Fábio Jesus às 02:48
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Sábado, 1 de Setembro de 2007

Longford



Se há razão para ver Longford, telefilme produzido pela norte-americana HBO sobre os notórios “Assassínios dos Pântanos” e particularmente a relação estabelecida entre Lorde Longford e a assassina Myra Hindley, essa é a magnífica composição de Jim Broadbent como Longford, verdadeira metamorfose a todos os níveis e trabalho notável de interpretação de um homem tão complexo quanto fascinante. Samantha Morton, Lindsay Duncan e um soberbo Andy Serkis – a atestar que merece bem mais do que fazer trabalhos de motion capture e voz em filmes de Peter Jackson – completam o superlativo elenco. Com argumento de Peter Morgan (The Queen) e realização de Tom Hooper (Elizabeth I), o filme, na boa tradição dos melhores telefilmes, é um sóbrio estudo de personagens, desprovido de artifícios excessivos mas ainda assim captivante do início ao fim.

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Fábio Jesus às 14:29
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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Faz um frio do catano em Montréal

Depois dos The Stills e dos Arcade Fire adocicarem algumas das suas músicas, polvilhando-as com o francês, eis que chega finalmente uma banda de Montréal exclusivamente francófona. Os Malajube deram os primeiros sinais de vida em 2004 e em 2006 lançaram o irrequieto mas sempre apetitoso Trompe l'oeil, que infelizmente só descobri este ano. Caso para um justificado "mais vale tarde que nunca"! Este Montréal -40ºC é um tema quente com nome frio.

 

 

 

 

Visitem o myspace da banda aqui

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Lídia Gomes às 23:28
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Sábado, 14 de Julho de 2007

Mosaico-pleonasmo



A criação de um filme-mosaico sólido e coerente implica, para além do domínio completo do material de base, a capacidade para equilibrar com perícia os distintos segmentos da narrativa. É precisamente neste departamento que The Dead Girl, de Karen Moncrieff, se espalha completamente ao comprido. Sofrendo de uma síndrome que já se tinha verificado parcialmente o ano passado, em Babel, de Alejandro González Iñárritu, a realizadora tenta de tal maneira engendrar múltiplos capítulos para a história que pretende contar que acaba por fazer com que a ligação destes com a pedra basilar do argumento seja tão ínfima que, se estes não existissem, ninguém daria pela sua falta. O resultado? Um filme altamente desequilibrado e pouco compacto, que ressoa muito menos do que devia e cujas partes são tão pouco satisfatórias como o todo. Salva-se o quinteto de protagonistas femininas, com especial destaque para as interpretações convincentes de Brittany Murphy e Rose Byrne.

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Fábio Jesus às 23:11
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Domingo, 29 de Abril de 2007

Uma Camera (pouco) Obscura

Da Escócia, já se sabe, surge, de quando em vez, uma daquelas bandas capazes de nos levar ao "extasiamento" (que é uma palavra que não existe, para minha pena e fúria, no dicionário português). Grupos como os Belle & Sebastian, Franz Ferdinand ou os Mogwai são belos exemplos.

 

No entanto, o Verão de 2006 trouxe-me a maior das revelações da música escocesa, os mui retro Camera Obscura e a contagiante Lloyd, I'm Ready To Be Heartbroken. Apesar de já não serem nenhuns bebés na indústria (formaram-se no já longínquo ano de 1996), a banda de Tracyanne Campbell apenas conseguiu o merecido destaque com o lançamento, em meados do ano passado, do tão dançavel como relaxante Let's Get Out of This Country, álbum repleto de influências dos anos 60 (com pitadas dos 80), melodias doces e harmoniosas e aquela voz quase angelical de Campbell. Em suma, um rebuçado de indie/folk.

 

E por ocasião da confirmação da presença dos Camera Obscura no Sudoeste 2007 (o meu eu optimista acreditava que eles vinham a Paredes de Coura...enfim) em baixo vejam o clip de Tears For Affairs, o quarto single de Let's Get Out of This Country, lançado no passado mês de Março. Este clip vem na senda dos anteriores da banda de Glasgow, ou seja, quase tão inteligentes quanto as suas letras sendo o de Tears For Affairs uma bonita e curiosa homenagem aos programas musicais transmitidos nos EUA na década de 60, onde pontificava o country e a folk.

 

 

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Lídia Gomes às 18:46
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Sábado, 7 de Abril de 2007

Bizarro



O novo filme do húngaro György Pálfi, Taxidermia, é um exercício em bizarria como poucos, uma comédia muito negra bem ao estilo de Delicatessen. Segue três gerações de uma família altamente disfuncional: um homem obcecado com sexo que sonha disparar fogo pelo pénis, um atleta de ingestão competitiva com uma cauda de porco e, finalmente, um taxidermista com problemas de aparência. Não há qualquer ligação entre os três segmentos, para além do laço familiar – como se estivéssemos a visionar três curtas-metragens que apenas têm em comum o facto de serem brutalmente inventivas e de se centrarem em algumas das piores características do ser humano.


Vencedor – de uma forma tão surpreendente como merecida – do Prémio do Público no mais recente Fantasporto, Taxidermia não é, definitivamente, para todos. Sim, porque Eli Roth é um menino de coro à beira de György Pálfi. Nudez, decepações, vómitos em quantidades industriais, gatos assassinos e uma cena particularmente perturbante que envolve o homem da imagem a extrair os seus próprios órgãos são alguns dos muitos docinhos que o realizador preparou para os amantes mais fervorosos do gore. E o mais fenomenal é que, apesar de aparentar ter sido feito a pensar no valor choque e da parca coerência narrativa, Taxidermia é constantemente estimulante e cativante. O que, por si só, já seria um grande feito. Mesmo sem os gatos assassinos.        

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Fábio Jesus às 22:38
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2007

The Fountain (2006), de Darren Aronofsky



Darren Aronofsky é um homem ambicioso, e, acima de tudo, muito persistente. The Fountain é um filme que quase não o foi: inicialmente para ser filmado em 2002, com um orçamento de 70 milhões de dólares e Brad Pitt e Cate Blanchett como protagonistas, acabou por ser posto de lado após a saída de Pitt, por alegadas diferenças criativas com o realizador. Mas Aronofsky tinha uma história para contar, e não desistiu. Acabou por retomar o projecto, em 2005, com um par diferente de protagonistas e metade do orçamento. O resultado é uma obra fascinante, embora não inteiramente bem sucedida.


The Fontain é a história de um homem, e de três épocas distintas: o passado, o presente e o futuro. Ou o presente, o passado próximo e um passado distante. Tudo depende da forma como escolhemos interpretá-lo. Somos apresentados a três linhas temporais diferentes: numa primeira, seguimos um neurocirurgião enquanto este tenta descobrir uma cura que salvará a sua esposa da morte certa que lhe é augurada por um tumor cerebral; noutra, assistimos à demanda pela Árvore da Vida por parte um Conquistador numa Espanha perto do descalabro; finalmente, observamos a viagem de um homem e uma árvore moribunda, no interior de uma bolha, em direcção ao que assumimos ser o espaço profundo.


Hugh Jackman é sublime na interpretação do trio de homens, conferindo uma dimensão muito própria a cada um – a inexorável certeza da morte que se avizinha e a recusa da mesma são reflectidas na face de constante alerta do neurocirurgião, face esta que se transfigura completamente para demonstrar a determinação obtusa do Conquistador. O terceiro homem é interpretado de forma bastante diferente, com uma serenidade quase etérea. É um atestado à versatilidade de Jackman a maneira como este compõe três homens intimamente ligados mas irremediavelmente distintos.


Transcendental e arrebatador são alguns dos adjectivos que já foram utilizados para descrever The Fountain. Arrebatador é-o certamente. A fotografia de Matthew Libatique e a banda-sonora de Clint Mansell convergem de maneira excepcional, dando origem a uma experiência sensorial como poucas, recheada de mini-clímaxes. Muito mais que um simples filme, The Fountain é uma experiência imersiva, que nos envolve e nos desperta os sentidos de maneira única. É difícil não abandonar a sala de cinema atordoado, ainda a processar a hora e meia anterior.


À medida que a sensação de atordoamento desvanece e o pensamento normal volta ao activo, no entanto, as falhas de The Fountain tornam-se mais evidentes. Grande parte do impacto do filme advém da beleza dos fotogramas e da excelência sonora muito mais do que da qualidade do argumento. O ensaio de Aronofsky sobre o antagonismo entre a inevitabilidade da morte e o desejo da vida eterna funciona até certo ponto, mas a ideia é ultrapassada pelos excelsos valores de produção, que acabam por, até certo ponto, a ofuscar. A ideia do realizador só não se materializou numa obra-prima porque o realizador cometeu o erro de se deixar iludir de tal forma pelas inúmeras possibilidades que acabou por fazer uma obra na qual o fim é menos importante do que o meio para o atingir.


Apesar das falhas, The Fountain não é de maneira nenhuma um filme falhado, porque um projecto não inteiramente sucedido de Darren Aronofsky continua a ser superior à maior parte dos filmes que nos invadem as salas de cinema todas as semanas. É, apesar de tudo, um excelente filme que merece ser visionado por toda a gente, quanto mais não seja pela belíssima história de amor em torno da qual tudo decorre.


Josh Bell, crítico de cinema do jornal Las Vegas Weekly, intitulou The Fountain de “biscoito da sorte com a duração de um filme”, e é impossível não concordar, pelo menos em parte. Em última análise, tudo se resume a um carpe diem excessivamente floreado. Embora, com um floreado destes, seja impossível ficar indiferente.


8/10


Fábio Jesus às 02:45
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007

El Laberinto del Fauno (2006), de Guillermo del Toro



Se me permitem, começarei esta crítica num registo mais pessoal. Gerei uma enorme expectativa em relação a El Laberinto del Fauno. Talvez porque sou um confesso admirador dos primeiros filmes de del Toro (Hellboy e Blade II são meritórios, sim, mas ainda assim longe do fulgor narrativo do delicioso El Espinazo del Diablo), talvez porque sempre reservei um cantinho especial para o fantástico, género tão maltratado ultimamente, através de obras de qualidade dúbia, caso das adaptações cinematográficas de As Crónicas de Nárnia ou das aventuras de Harry Potter, talvez porque a crítica internacional foi unânime em declará-lo um dos grandes filmes do ano transacto. A verdade é que não aguardava um filme com tal voraz ansiedade desde, coincidentemente, O Regresso do Rei. 

 

Nos momentos que antecederam o início do filme, pensei o quão fácil, dada a tremenda antecipação, seria sair da sala desapontado, com as expectativas goradas. Mas Guillermo del Toro, como Peter Jackson há quase quatro anos atrás, não decepcionou. El Laberinto do Fauno é excepcional. Uma daquelas peças cinematográficas que nos relembram o porquê de irmos ao cinema. Uma fábula intemporal, satisfatória do primeiro ao último minuto. Uma obra-prima.

 

Por esta altura, com a miríade de críticas que invadiram a imprensa e a blogosfera, já toda a gente estará familiarizada com a história de Ofelia, a menina órfã de pai, presa num mundo ao qual não pertence e que recusa integrar. Como em El Espinazo del Diablo, del Toro retrata as crianças como seres vulneráveis e puros, passíveis de serem invadidos por uma multiplicidade de sentimentos contraditórios que não conseguem explicar e que tendem em personificar na forma de seres imaginários com os quais interagem e que lhes possibilitam um refúgio vital e libertador. E o que seria melhor para o realizador transpor a sua própria, efervescente imaginação para a tela?

 

Ofelia é dona de uma imaginação que faria Tim Burton roer-se de inveja. Na sua mente coabitam faunos, mandrágoras e monstros de olhos nas mãos: criaturas imbuídas de simbolismo – que percorre todo o filme – que tanto conseguem ser assustadoras como enternecedoras, e cuja execução – potenciada pelo brilhante trabalho de fotografia de Guillermo Navarro – resulta invariavelmente num eye candy impressionante. O tal monstro de olhos nas mãos, o aterrorizador Pale Man, está tão bem conseguido que merecia um filme só para si.

 

Guillermo del Toro perpetra uma proeza da qual poucos se podem orgulhar: pega numa premissa base que não é propriamente nova – o antagonismo bem/mal já é representado no celulóide desde os primórdios do cinema e a conclusão adivinha-se à distância – e apropria-se da mesma de tal forma que o resultado final é algo que nos parece ao mesmo tempo familiar e completamente novo e refrescante. O clímax final, detentor de potencial para, se conduzido por um maestro menos competente, se tornar num exercício em puro lamechismo, acaba por se tornar num dos momentos mais bem conseguidos de todo o filme. Tornando Ofelia numa personagem tão vulnerável, detentora de um fio emocional tão fino que parece poder quebrar a qualquer instante, del Toro agarra-nos de semelhante maneira que, pelo final, a história da pequena criança já se encontra tão entranhada em nós que é impossível não ficar emocionado.

 

A analogia com El Espinazo del Diablo funciona na perfeição: ambos apresentam como protagonistas crianças que enfrentam adversidades e que sofrem com a rispidez de uma autoridade mais velha (aqui representada com a austeridade necessária por Sergi López), em ambos a acção decorre durante a Guerra Civil Espanhola (que é nada mais do que o pano de fundo para a verdadeira história – não acredito que Guillermo del Toro tenha tido como intenção fazer uma qualquer afirmação política) e ambos podem ser classificados como fábula infantil para adultos, sendo que El Laberinto del Fauno eleva os patamares de violência dessa obra, tornando-se, em partes, difícil de digerir. Del Toro dirige com a segurança de quem já não é novo no género e sabe exactamente o que pretende fazer e como tem ideia de o conseguir, atingindo um resultado final arrebatador a todos os níveis.

 

À saída da sala, todo o receio inicial se tinha esvaído, dando lugar a uma sensação de satisfação semelhante àquela que invade uma criança quando esta recebe um brinquedo novo. El Laberinto del Fauno é não só o melhor filme de 2006 como também a melhor fantasia desde que Peter Jackson nos brindou com a assombrosa conclusão à Trilogia do Anel e uma hora e cinquenta e dois minutos de puro deleite que ninguém devia perder. É, como dizia Humphrey Bogart no seminal The Maltese Falcon, the stuff that dreams are made of. Porque, afinal de contas, o labirinto existe para todos nós.

 

10/10


Fábio Jesus às 23:49
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Quinta-feira, 15 de Março de 2007

La Science des Rêves (2006), de Michel Gondry




Há três anos, Michel Gondry, até então conhecido apenas como realizador de alguns brilhantes videoclips e de uma não tão brilhante primeira longa metragem, Human Nature, saltava para as luzes da ribalta com o lançamento de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (ESOTSM), que consolidava também o estatuto de Charlie Kaufman como um dos melhores e mais criativos argumentistas da actualidade. Da prodigiosa combinação de Gondry com Kaufman saía, na minha opinião, o melhor filme de 2004, e uma das mais belas e inventivas histórias de amor do nosso tempo.

 

La Science des Rêves marca apenas a quarta incursão de Gondry no campo da realização cinematográfica, após o documentário-concerto Dave Chappelle’s Block Party (2006) e, tal como ESOTSM, o filme é,  no fundo, uma história de amor, apesar de todos os folheados que a rodeiam, que contribuem para o tornar ainda mais ambíguo do que o filme protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet. Neste aspecto, o realizador não se podia afastar mais da tradicional concepção de comédia romântica do século XXI – não há aqui as mesmas personagens padronizados nem a mesma estrutura formulaica às quais somos cada vez mais habituados. Não há sequer o tradicional happy ending – pelo menos não no sentido convencional da sua definição.

 

O que Gondry consegue fazer, como seria de esperar, é confundir o espectador. Usando e abusando, mais uma vez, da dicotomia sonho/realidade, somos presenteados com uma colecção bizarra de acontecimentos que nem sempre têm um sentido evidente mas têm sempre sucesso em deixar uma marca indelével em quem os presencia. Mas não estamos, de maneira nenhuma, perante um OVNI cinematográfico à David Lynch – no fim, tudo é mais ou menos compreensível, especialmente se formos preparados para algo que tanto desfoca a realidade como a extravasa.

 

Visualmente o filme é um espanto. A imaginação bizarra de Michel Gondry continua a fazer das suas – de carros e edifícios em papelão às já famosas mãos gigantes, passando pelo arrojo visual da estação televisiva Stéphane TV, fruto da imaginação de Stéphane (Gael García Bernal, em mais uma bela composição), tudo se coaduna para criar uma experiência visual impressionante – muitos frames dariam fantásticos quadros –, ainda que tudo pareça algo inconsequente.

 

ESOTSM triunfou porque contava, para além do espírito inovador de Michel Gondry, com a segurança e o savoir-faire de um homem cuja escrita já fora aclamada tanto por Being John Malkovich como por Adaptation. Sem o apoio de Charlie Kaufman, Gondry vê-se despido do elo que lhe permitia a ligação entre a grande ideia e a grande execução. La Science des Rêves é uma experiência agradável e nunca entediante, sim, com momentos de genialidade criativa únicos, mas acaba por saber a pouco, e a sensação de que, por baixo da maquilhagem, há um grande filme à espera de ser desenterrado é inequívoca.

 

Michel Gondry já tem um novo projecto na manga: chama-se Be Kind Rewind e tem uma premissa ainda mais deliciosamente bizarra do que qualquer coisa que tenha feito até agora. Potencial certamente não lhe falta, assim como não falta ao seu realizador. Até lá, apenas uma certeza: a banda sonora de um filme de alguém que tem como amigos Jack e Meg White nunca desapontará ninguém.


7/10


Fábio Jesus às 04:51
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Sábado, 10 de Março de 2007

Das Leben der Anderen (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck




2006 foi, no plano cinematográfico, um ano marcadamente político. De Babel a Blood Diamond, de The Queen a The Last King of Scotland, passando pelo díptico de Clint Eastwood sobre a Batalha de Iwo Jima e acabando nas politiquices musicais de Dreamgirls. A Alemanha tem uma negra mas riquíssima história, particularmente no Século XX, que tem sabido explorar e recriar no cinema, com excelentes resultados – relembre-se Der Untergang, de Oliver Hirschbiegel, que há dois anos perdeu o Óscar de Melhor Filmes Estrangeiro para o espanhol Mar Adentro.

 

Das Leben der Anderen, primeira longa-metragem de Florian Henckel von Donnersmarck, afasta-se do período recorrente da Segunda Guerra Mundial, acabando por se centrar nos tempos conturbados que se lhe seguiram, a segunda metade do Século XX, na qual a Alemanha se tornou no coração de uma bipolarização mundial, com a sua divisão em República Federal Alemã e República Democrática Alemã. É nesta última, a Este do Muro de Berlim, que decorre a acção do filme.

 

Donnersmarck explora todo o conservadorismo e proibição que se vivia na RDA na altura, particularmente a supervisão com punho de ferro que se impunha sobre o mundo das Artes. A personagem principal, aliás, é Georg Dreyman, um dramaturgo que arrisca a sua já limitada liberdade para informar o exterior da opressão vivida. O verdadeiro ponto de interesse, no entanto, consiste em verificar a evolução ideológica do agente encarregue de vigiar e relatar todos os movimentos de Dreyman. É na história de redenção deste agente, interpretado com uma contenção notável por Ulrich Mühe, que o realizador concentra os seus maiores esforços, e é nela que residem os momentos de maior densidade dramática de todo o filme. Não é uma personagem de todo inédita, mas resulta na perfeição devido à expressividade de Mühe, que compõe um homem que começamos por detestar mas com o qual não conseguimos evitar simpatizar.

 

Na boa tradição do cinema europeu, Das Leben der Anderen é uma obra sóbria, informativa e tocante, que consegue fazer passar a mensagem sem se esforçar demasiado. Donnersmarck cria personagens fortes, com uma dimensão real e não apenas simples marionetas usadas ao serviço do avançar do argumento, e com elas conta-nos uma história credível que, infelizmente, ainda reflecte a situação de certas nações. Um dos grandes filmes de 2006.

 

9/10


Fábio Jesus às 19:36
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