Terça-feira, 12 de Junho de 2007

Hot Fuzz (2007), de Edgar Wright



Inventar um novo género cinematográfico não é tarefa para qualquer um. Em teoria, basta pegar em dois ou três géneros distintos e combiná-los de uma maneira que nunca tenha sido pensada para criar algo completamente novo. Na prática, no entanto, equilibrar convenientemente os vários géneros, cada um com especificidades próprias, e tornar o produto num filme compacto é bastante mais difícil. Foi isto que, em 1992, Peter Jackson conseguiu, quando realizou a primeira (assumida) comédia de zombies, o clássico de culto Braindead. Em 2004, Edgar Wright levaria o conceito mais longe – criou, com Shaun of the Dead, a primeira comédia romântica de zombies ou, como lhe chamou, a primeira zom com rom.


Shaun of the Dead tornou-se imediatamente num dos sleeper-hits de 2004 – a inovação provocante granjeou-lhe sucesso junto da crítica assim como a nível comercial, tendo rendido, até ao momento, cerca de 30 milhões de dólares em todo o Mundo. O próprio pai dos filmes de zombies, George Romero, tornou-se num grande admirador da obra, convidando mesmo Edgar Wright e Simon Pegg para um cameo em Land of the Dead , o quarto filme na saga "Dead”. Três anos depois, a dupla Wright/Pegg está de volta com algo diferente mas ainda assim igualmente delirante: Hot Fuzz, uma comédia de acção com contornos de terror e gore.


Hot Fuzz não é melhor que Shaun of the Dead. É maior (talvez excessivamente) e mais ambicioso, mas não é superior. Ainda assim, consegue ser igualmente bom, o que só por si já é um feito notável, e é o melhor buddy cop movie desde há muito, muito tempo. Os paralelos entre ambos saltam à vista: a dupla Simon Pegg/Nick Frost mantém-se; as referências à cultura pop abundam (se no primeiro se escolhiam vinis para atirar aos zombies mais incautos, neste marca presença uma imensa colecção de dvds); o gore e as cenas altamente gráficas continuam a existir em doses industriais; a abordagem estilo videoclip (com flashforwards e oscilações rápidas entre cenas) em certas partes, como dispositivo de avanço da narrativa também regressa, e funciona – Tony Scott, tira notas.


Se há uma razão que contribui para que Hot Fuzz não ultrapasse, em qualidade, o seu predecessor, é o facto de que este não é tão assumidamente uma comédia como Shaun of the Dead. Embora continue a motivar uma grande dose de gargalhadas sentidas, por vezes a componente cómica é suplantada por uma maior ênfase noutros territórios. A sequência final – uma massiva cena de acção de trinta minutos – é muito mais divertida do que engraçada, parodiando as grandes produções de acção de Hollywood, nomeadamente as de Michael Bay, caso de Bad Boys 2. Point Break, com Keanu Reeves e Patrick Swayze, é outro dos filmes em destaque, tendo até direito a uma homenagem muito especial.


O elenco de Shaun of the Dead é excepcional – composto, essencialmente, por grandes nomes da Britcom – e, nisso, Hot Fuzz não foge à regra. Simon Pegg, aqui num papel mais sério, e Nick Frost são a dupla perfeita, e todo o elenco secundário é genial: do capitão Jim Broadbent à dupla de polícias-com-a-mania composta por Rafe Spall e Paddy Considine, passando por um irresistível Timothy Dalton como vilão de serviço, não se descobre um elo mais fraco, e há ainda tempo para cameos de Steve Coogan, Martin Freeman e do incontornável Bill Nighy.


É assim que se vai construindo uma grande carreira: Edgar Wright já conta no seu currículo com obras como Shaun of the Dead ou a série televisiva Spaced, e Hot Fuzz afigura-se como mais uma excelente adição a esta ainda curta mas já impressionante lista. Tal como em Shaun of the Dead, aconselham-se múltiplas visualizações, uma vez que, à primeira, é impossível reter todos os pormenores que Wright e Pegg incluíram no argumento. Não sendo perfeito, Hot Fuzz estilhaça qualquer comédia americana que tenha sido lançada recentemente – embora, num panorama dominado por comédias com a chancela "Movie", não se possa dizer que isso seja um grande louvor. Até parece que todos os Edgar Wrights norte-americanos continuam a trabalhar em televisão.


8/10


Fábio Jesus às 22:53
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2007

The Fountain (2006), de Darren Aronofsky



Darren Aronofsky é um homem ambicioso, e, acima de tudo, muito persistente. The Fountain é um filme que quase não o foi: inicialmente para ser filmado em 2002, com um orçamento de 70 milhões de dólares e Brad Pitt e Cate Blanchett como protagonistas, acabou por ser posto de lado após a saída de Pitt, por alegadas diferenças criativas com o realizador. Mas Aronofsky tinha uma história para contar, e não desistiu. Acabou por retomar o projecto, em 2005, com um par diferente de protagonistas e metade do orçamento. O resultado é uma obra fascinante, embora não inteiramente bem sucedida.


The Fontain é a história de um homem, e de três épocas distintas: o passado, o presente e o futuro. Ou o presente, o passado próximo e um passado distante. Tudo depende da forma como escolhemos interpretá-lo. Somos apresentados a três linhas temporais diferentes: numa primeira, seguimos um neurocirurgião enquanto este tenta descobrir uma cura que salvará a sua esposa da morte certa que lhe é augurada por um tumor cerebral; noutra, assistimos à demanda pela Árvore da Vida por parte um Conquistador numa Espanha perto do descalabro; finalmente, observamos a viagem de um homem e uma árvore moribunda, no interior de uma bolha, em direcção ao que assumimos ser o espaço profundo.


Hugh Jackman é sublime na interpretação do trio de homens, conferindo uma dimensão muito própria a cada um – a inexorável certeza da morte que se avizinha e a recusa da mesma são reflectidas na face de constante alerta do neurocirurgião, face esta que se transfigura completamente para demonstrar a determinação obtusa do Conquistador. O terceiro homem é interpretado de forma bastante diferente, com uma serenidade quase etérea. É um atestado à versatilidade de Jackman a maneira como este compõe três homens intimamente ligados mas irremediavelmente distintos.


Transcendental e arrebatador são alguns dos adjectivos que já foram utilizados para descrever The Fountain. Arrebatador é-o certamente. A fotografia de Matthew Libatique e a banda-sonora de Clint Mansell convergem de maneira excepcional, dando origem a uma experiência sensorial como poucas, recheada de mini-clímaxes. Muito mais que um simples filme, The Fountain é uma experiência imersiva, que nos envolve e nos desperta os sentidos de maneira única. É difícil não abandonar a sala de cinema atordoado, ainda a processar a hora e meia anterior.


À medida que a sensação de atordoamento desvanece e o pensamento normal volta ao activo, no entanto, as falhas de The Fountain tornam-se mais evidentes. Grande parte do impacto do filme advém da beleza dos fotogramas e da excelência sonora muito mais do que da qualidade do argumento. O ensaio de Aronofsky sobre o antagonismo entre a inevitabilidade da morte e o desejo da vida eterna funciona até certo ponto, mas a ideia é ultrapassada pelos excelsos valores de produção, que acabam por, até certo ponto, a ofuscar. A ideia do realizador só não se materializou numa obra-prima porque o realizador cometeu o erro de se deixar iludir de tal forma pelas inúmeras possibilidades que acabou por fazer uma obra na qual o fim é menos importante do que o meio para o atingir.


Apesar das falhas, The Fountain não é de maneira nenhuma um filme falhado, porque um projecto não inteiramente sucedido de Darren Aronofsky continua a ser superior à maior parte dos filmes que nos invadem as salas de cinema todas as semanas. É, apesar de tudo, um excelente filme que merece ser visionado por toda a gente, quanto mais não seja pela belíssima história de amor em torno da qual tudo decorre.


Josh Bell, crítico de cinema do jornal Las Vegas Weekly, intitulou The Fountain de “biscoito da sorte com a duração de um filme”, e é impossível não concordar, pelo menos em parte. Em última análise, tudo se resume a um carpe diem excessivamente floreado. Embora, com um floreado destes, seja impossível ficar indiferente.


8/10


Fábio Jesus às 02:45
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Sábado, 31 de Março de 2007

Metallica: Some Kind of Monster (2004), de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky



Metallica. Mais de noventa milhões de álbuns vendidos em todo o mundo desde 1981, o que os transforma numa das bandas mais influenciais e comercialmente bem sucedidas dos últimos 25 anos. Uma legião de fãs imensa e incansável que os acompanha para onde quer que vão. Um vocalista que tem tanto de carismático como de problemático. Quer se goste, quer não, a maior banda de heavy metal do Planeta.


Perante um historial destes e quase três décadas de sucesso, teria sido fácil tornar o documentário sobre a banda de James Hetfield numa crónica sobre a sua carreira, desde os tempos conturbados de Kill’em All e da morte do baixista Cliff Burton até ao lançamento de St. Anger, passando pela batalha contra o Napster e por todos os problemas e controvérsias que sempre foram cartão-de-visita da banda. Seria fácil escolher a via da idolatria (o nome do documentário sugere isso mesmo…), demonstrando todos os passos que tornaram os Metallica numa das maiores bandas do género, juntamente com nomes como Megadeth, Slayer e Anthrax .


Mas Metallica: Some Kind of Monster é, paradoxalmente, algo muito diferente. O que Joe Berlinger e Bruce Sinofsky fizeram não é um elogio de duas horas e meia, mas sim uma viagem inesperada ao lado negro dos Metallica. E é precisamente isso que o torna tão interessante – não é todos os dias que se tem a oportunidade de presenciar o semi-descalabro de uma banda de tão grande dimensão, e é mais raro ainda poder acompanhar todos os passos dessa mesma queda como se estivéssemos lá.


Some Kind of Monster segue os membros da banda entre 2001 e 2003, o período que antecedeu o lançamento de St. Anger e um dos mais conturbados da sua história. Somos convidados a acompanhar todos os momentos após a saída do então baixista Jason Newsted (para se dedicar ao seu projecto Echobrain), incluindo a gravação do álbum e o longo período de inércia criativa que correspondeu aos vários meses em que Hetfield esteve em reabilitação devido a alcoolismo e outros vícios. Durante este período, o terapeuta Phil Towle é chamado para tentar restabelecer a ordem perdida.


O grande ponto de interesse consiste em observar as disputas de poder constantes entre os egos maiores que a vida de James Hetfield e Lars Ulrich. É curioso constatar que, apesar de serem, na teoria, três os membros que constituem a base dos Metallica, a banda pertence quase na totalidade aos dois fundadores, já que o guitarrista Kirk Hammet se mantém quase sempre à parte das discussões entre o vocalista e o baterista. Estas quezílias constantes têm o condão de humanizar Hetfield e Ulrich, e essa humanização é precisamente dos aspectos mais recompensadores de todo filme. É nesta transformação de dois homens tantas vezes endeusados pelos fãs em seres humanos com falhas à semelhança de todos os outros que Some Kind o Monster acaba por triunfar.


O ponto alto do filme, no entanto, acaba por ser protagonizado pela pessoa mais improvável: Dave Mustaine. O malogrado guitarrista (que foi o primeiro guitarrista a tempo inteiro da banda, tendo posteriormente sido expulso e formado os eternos rivais Megadeth) aparece numa cena na qual, frente a frente com Lars Ulrich, confessa o quão difícil tem sido ficar sempre em segundo na corrida com os Metallica e como se arrepende de ter deixado a banda. Pelo carácter revelador da cena, Mustaine não ficou feliz por vê-la incluída no corte final do documentário, originando ainda mais controvérsia.


Os dois realizadores filmaram mais de 1200 horas de vídeo que posteriormente editaram para apenas duas horas e meia. A vida de Hetfield, Hammet e Ulrich deve-se ter assemelhado, durante este período, à vigilância constante de um reality show, e isso nota-se. Não são poucas as vezes em que os diálogos parecem pouco naturais, como se estivessem a ser interpretados. Algumas discussões, recheadas de pausas contemplativas, reforçam esse efeito, que se torna no calcanhar de Aquiles do documentário.


No fim, como seria de esperar, tudo termina bem por terras do monstro Metallica. Com a contratação de Robert Trujillo para ocupar o lugar deixado vago por Cliff Burton (o produtor Bob Rock foi o baixista substituto durante a criação de St. Anger) todos os problemas são esquecidos e a banda parte em tournée novamente. Não deixa de ser algo irónico, apesar de tudo, que um dos álbuns mais suados da história dos Metallica tenha acabado por se tornar num dos menos bem recebidos pela crítica e pelos fãs.


Confesso que nunca fui o maior admirador dos Metallica. Talvez porque o thrash metal nunca suscitou em mim grande interesse. Talvez também porque nunca me interessei particularmente em explorar a fundo os maiores clássicos do quarteto. Mas o carisma dos seus principais membros é inegável, e Some Kind of Monster recria-o na perfeição. Além de ter conseguido o pequeno grande feito de me aguçar a curiosidade e a vontade de ver James Hetfield e companhia, dia 28 de Junho, no Parque Tejo.


8/10


Fábio Jesus às 01:28
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Quarta-feira, 28 de Março de 2007

Curtas

Notes on a Scandal (2006), de Richard Eyre




Ancorado em duas soberbas composições por parte de duas das melhores actrizes da actualidade, Notes on a Scandal acaba, infelizmente, por ser apenas a sombra do excelente filme que podia ter sido. Eyre explora várias problemáticas, mas nunca as consegue balancear convenientemente – a solidão e o sempre presente medo da morte solitária, o desejo de fugir à rotina quase enclausurante da vida de casado e a inesgotável libido adolescente convergem de uma maneira nem sempre satisfatória. Talvez porque a maior parte do orçamento tenha ido parar aos bolsos de Dench e Blanchett, é quase impossível abanar a sensação de que estamos a assistir a um telefilme feito à pressa. Com um argumento mais polido e uma realização menos oscilante podíamos ter aqui um dos melhores de 2006, mas nem tudo está perdido: um filme com Bill Nighy é sempre melhor do que o mesmo seria sem Bill Nighy .

 
5/10

__________________________________________________________________________


Zwartboek (2006), de Paul Verhoeven




Seria legítimo pensar que o regresso de Paul Verhoeven às origem, após anos em Hollywood a criar alguns dos seus maiores e mais rentáveis blockbusters, resultaria num retorno por parte do realizador à realização de obras mais modestas e, enfim, menos artificiais. Mas Zwartboek é, neste capítulo, uma espécie de armadilha. Se no início chegamos a acreditar que estamos perante um filme sóbrio, que pertence muito mais ao argumento e aos actores do que aos aos artifícios técnicos, pelo fim desenganamo-nos ao sermos invadidos por uma catadupa de trejeitos hollywoodescos que quase arruínam a tão sólida primeira metade. Embora longo, Zwartboek nunca entedia e é sempre excelente entretenimento, embora não passe daí. Se quisermos, é muito mais um Flags of our Fathers do que um Letters from Iwo Jima, na medida em que sacrifica a contenção dramática em prol do maior entretenimento, e aí acerta em todas as notas certas.

 

7/10


Fábio Jesus às 16:55
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007

El Laberinto del Fauno (2006), de Guillermo del Toro



Se me permitem, começarei esta crítica num registo mais pessoal. Gerei uma enorme expectativa em relação a El Laberinto del Fauno. Talvez porque sou um confesso admirador dos primeiros filmes de del Toro (Hellboy e Blade II são meritórios, sim, mas ainda assim longe do fulgor narrativo do delicioso El Espinazo del Diablo), talvez porque sempre reservei um cantinho especial para o fantástico, género tão maltratado ultimamente, através de obras de qualidade dúbia, caso das adaptações cinematográficas de As Crónicas de Nárnia ou das aventuras de Harry Potter, talvez porque a crítica internacional foi unânime em declará-lo um dos grandes filmes do ano transacto. A verdade é que não aguardava um filme com tal voraz ansiedade desde, coincidentemente, O Regresso do Rei. 

 

Nos momentos que antecederam o início do filme, pensei o quão fácil, dada a tremenda antecipação, seria sair da sala desapontado, com as expectativas goradas. Mas Guillermo del Toro, como Peter Jackson há quase quatro anos atrás, não decepcionou. El Laberinto do Fauno é excepcional. Uma daquelas peças cinematográficas que nos relembram o porquê de irmos ao cinema. Uma fábula intemporal, satisfatória do primeiro ao último minuto. Uma obra-prima.

 

Por esta altura, com a miríade de críticas que invadiram a imprensa e a blogosfera, já toda a gente estará familiarizada com a história de Ofelia, a menina órfã de pai, presa num mundo ao qual não pertence e que recusa integrar. Como em El Espinazo del Diablo, del Toro retrata as crianças como seres vulneráveis e puros, passíveis de serem invadidos por uma multiplicidade de sentimentos contraditórios que não conseguem explicar e que tendem em personificar na forma de seres imaginários com os quais interagem e que lhes possibilitam um refúgio vital e libertador. E o que seria melhor para o realizador transpor a sua própria, efervescente imaginação para a tela?

 

Ofelia é dona de uma imaginação que faria Tim Burton roer-se de inveja. Na sua mente coabitam faunos, mandrágoras e monstros de olhos nas mãos: criaturas imbuídas de simbolismo – que percorre todo o filme – que tanto conseguem ser assustadoras como enternecedoras, e cuja execução – potenciada pelo brilhante trabalho de fotografia de Guillermo Navarro – resulta invariavelmente num eye candy impressionante. O tal monstro de olhos nas mãos, o aterrorizador Pale Man, está tão bem conseguido que merecia um filme só para si.

 

Guillermo del Toro perpetra uma proeza da qual poucos se podem orgulhar: pega numa premissa base que não é propriamente nova – o antagonismo bem/mal já é representado no celulóide desde os primórdios do cinema e a conclusão adivinha-se à distância – e apropria-se da mesma de tal forma que o resultado final é algo que nos parece ao mesmo tempo familiar e completamente novo e refrescante. O clímax final, detentor de potencial para, se conduzido por um maestro menos competente, se tornar num exercício em puro lamechismo, acaba por se tornar num dos momentos mais bem conseguidos de todo o filme. Tornando Ofelia numa personagem tão vulnerável, detentora de um fio emocional tão fino que parece poder quebrar a qualquer instante, del Toro agarra-nos de semelhante maneira que, pelo final, a história da pequena criança já se encontra tão entranhada em nós que é impossível não ficar emocionado.

 

A analogia com El Espinazo del Diablo funciona na perfeição: ambos apresentam como protagonistas crianças que enfrentam adversidades e que sofrem com a rispidez de uma autoridade mais velha (aqui representada com a austeridade necessária por Sergi López), em ambos a acção decorre durante a Guerra Civil Espanhola (que é nada mais do que o pano de fundo para a verdadeira história – não acredito que Guillermo del Toro tenha tido como intenção fazer uma qualquer afirmação política) e ambos podem ser classificados como fábula infantil para adultos, sendo que El Laberinto del Fauno eleva os patamares de violência dessa obra, tornando-se, em partes, difícil de digerir. Del Toro dirige com a segurança de quem já não é novo no género e sabe exactamente o que pretende fazer e como tem ideia de o conseguir, atingindo um resultado final arrebatador a todos os níveis.

 

À saída da sala, todo o receio inicial se tinha esvaído, dando lugar a uma sensação de satisfação semelhante àquela que invade uma criança quando esta recebe um brinquedo novo. El Laberinto del Fauno é não só o melhor filme de 2006 como também a melhor fantasia desde que Peter Jackson nos brindou com a assombrosa conclusão à Trilogia do Anel e uma hora e cinquenta e dois minutos de puro deleite que ninguém devia perder. É, como dizia Humphrey Bogart no seminal The Maltese Falcon, the stuff that dreams are made of. Porque, afinal de contas, o labirinto existe para todos nós.

 

10/10


Fábio Jesus às 23:49
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Sábado, 17 de Março de 2007

Nuovo Cinema Paradiso (1989), de Giuseppe Tornatore



Itália do pós-Segunda Guerra. Toto é um órfão de pai,  perdido  a lutar algures na Rússia. O seu único refúgio é o cinema  da pequena localidade onde vive – chamado Cinema Paradiso -, pelo qual nutre uma profunda admiração, e para o qual vai sempre que pode. É também aí que conhece Alfredo, o velho projeccionista, com quem desenvolve uma grande amizade, e que se torna o seu maior confessor e lhe ensina os segredos da projecção cinematográfica. Os anos passam e Toto cresce, apaixona-se e vai para a tropa. Eventualmente decide partir, procurar uma vida nova, e Alfredo fá-lo prometer que não voltará ou dará notícias. Mais de trinta anos depois, a notícia da morte de Alfredo leva-o a quebrar a promessa que havia mantido tão religiosamente, regressando à sua terra natal e reencontrando tudo aquilo que tinha tentado esquecer.


Desenganem-se aqueles que pensam que Nuovo Cinema Paradiso é um filme sobre cinema per se. A 7ª Arte é apenas o pano de fundo para esta fábula sobre amizade, paixão e nostalgia. O que não quer dizer que o cinema exista apenas no título, muito pelo contrário: o cenário do filme por excelência é a tal sala Cinema Paradiso, e as referências abundam: dos italianos Luchino Visconti e Michelangelo Antonioni aos mais geograficamente distantes Charlie Chaplin ou John Wayne , encontra-se um pouco de tudo – a própria sala de projecções contém numa das paredes um poster de Casablanca -, numa clara tentativa de homenagem (que culmina na famosa montagem final…) por parte de Tornatore. Em parte, o filme é uma celebração do cinema enquanto máquina de sonhos capaz de despoletar as mais extraordinárias reacções, enfeitiçando o espectador de uma maneira singular e inimitável. O fascínio inicial de Toto e um pouco de toda a população da pequena localidade em torno das projecções cinematográficas é prova disto mesmo, e aparece como uma espécie de carta de amor do realizador a uma época na qual este efeito não era ainda reduzido e condicionado pelo fenómeno cinema em casa – o seu objectivo, aliás, era mesmo que o filme servisse como uma espécie de obituário às casas de projecção tradicionais e à indústria de cinema em geral.


Mas o verdadeiro triunfo de Nuovo Cinema Paradiso reside na relação improvável entre o miúdo Toto e o projeccionista Alfredo (o recentemente falecido Philippe Noiret, numa interpretação notável). Embora inicialmente relutante, Alfredo acaba por ceder face à insistência e aos encantos do pequeno, ensinando-lhe a sua arte – segundo ele, tudo aquilo que sabe fazer – e tornando-se o seu melhor amigo. Desta amizade resultam algumas das melhores cenas de todo o filme, como aquela em que Toto salva Alfredo de morte certa quando este se confronta com um incêndio que reduz a cinzas a sala de cinema e leva à sua reconstrução e consequente renomeação para Nuovo Cinema Paradiso . Quando Toto se apaixona, é a Alfredo que pede conselhos e é com o velho que confidencia.


Contada em flashbacks, a história mostra-nos três fases da vida de Toto: a primeira, enquanto criança inocente e fascinada com o efeito hipnotizante do cinema; a segunda, na adolescência, que traz o primeiro amor e a responsabilidade de tomar conta do cinematógrafo; finalmente, trinta anos depois da fase anterior, a vida de adulto, que inicia e fecha o filme: Toto é um realizador famoso e respeitado, com uma vida nova que mantém da infância a paixão enorme pelo cinema. Tornatore filma toda esta sequencialização temporal sem uma ponta de pretensiosismo, com uma simplicidade contagiante. Não existem aqui planos complicados nem artifícios técnicos complexos, apenas a segurança de quem sabe que é possível, e quem sabe, mais fácil, fazer bom cinema sem cair no show-off desnecessário.


Visto por uns como clássico intemporal e por outros como uma obra demasiado sentimentalista que usa e abusa do schmaltz, Nuovo Cinema Paradiso é visualização obrigatória, quanto mais não seja pela simplicidade desarmante com que conta uma história que, não sendo original ou inovadora, cumpre na sua totalidade o seu propósito, e não cessa de encantar.


9/10


Fábio Jesus às 18:48
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Quinta-feira, 15 de Março de 2007

La Science des Rêves (2006), de Michel Gondry




Há três anos, Michel Gondry, até então conhecido apenas como realizador de alguns brilhantes videoclips e de uma não tão brilhante primeira longa metragem, Human Nature, saltava para as luzes da ribalta com o lançamento de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (ESOTSM), que consolidava também o estatuto de Charlie Kaufman como um dos melhores e mais criativos argumentistas da actualidade. Da prodigiosa combinação de Gondry com Kaufman saía, na minha opinião, o melhor filme de 2004, e uma das mais belas e inventivas histórias de amor do nosso tempo.

 

La Science des Rêves marca apenas a quarta incursão de Gondry no campo da realização cinematográfica, após o documentário-concerto Dave Chappelle’s Block Party (2006) e, tal como ESOTSM, o filme é,  no fundo, uma história de amor, apesar de todos os folheados que a rodeiam, que contribuem para o tornar ainda mais ambíguo do que o filme protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet. Neste aspecto, o realizador não se podia afastar mais da tradicional concepção de comédia romântica do século XXI – não há aqui as mesmas personagens padronizados nem a mesma estrutura formulaica às quais somos cada vez mais habituados. Não há sequer o tradicional happy ending – pelo menos não no sentido convencional da sua definição.

 

O que Gondry consegue fazer, como seria de esperar, é confundir o espectador. Usando e abusando, mais uma vez, da dicotomia sonho/realidade, somos presenteados com uma colecção bizarra de acontecimentos que nem sempre têm um sentido evidente mas têm sempre sucesso em deixar uma marca indelével em quem os presencia. Mas não estamos, de maneira nenhuma, perante um OVNI cinematográfico à David Lynch – no fim, tudo é mais ou menos compreensível, especialmente se formos preparados para algo que tanto desfoca a realidade como a extravasa.

 

Visualmente o filme é um espanto. A imaginação bizarra de Michel Gondry continua a fazer das suas – de carros e edifícios em papelão às já famosas mãos gigantes, passando pelo arrojo visual da estação televisiva Stéphane TV, fruto da imaginação de Stéphane (Gael García Bernal, em mais uma bela composição), tudo se coaduna para criar uma experiência visual impressionante – muitos frames dariam fantásticos quadros –, ainda que tudo pareça algo inconsequente.

 

ESOTSM triunfou porque contava, para além do espírito inovador de Michel Gondry, com a segurança e o savoir-faire de um homem cuja escrita já fora aclamada tanto por Being John Malkovich como por Adaptation. Sem o apoio de Charlie Kaufman, Gondry vê-se despido do elo que lhe permitia a ligação entre a grande ideia e a grande execução. La Science des Rêves é uma experiência agradável e nunca entediante, sim, com momentos de genialidade criativa únicos, mas acaba por saber a pouco, e a sensação de que, por baixo da maquilhagem, há um grande filme à espera de ser desenterrado é inequívoca.

 

Michel Gondry já tem um novo projecto na manga: chama-se Be Kind Rewind e tem uma premissa ainda mais deliciosamente bizarra do que qualquer coisa que tenha feito até agora. Potencial certamente não lhe falta, assim como não falta ao seu realizador. Até lá, apenas uma certeza: a banda sonora de um filme de alguém que tem como amigos Jack e Meg White nunca desapontará ninguém.


7/10


Fábio Jesus às 04:51
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Sábado, 10 de Março de 2007

Das Leben der Anderen (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck




2006 foi, no plano cinematográfico, um ano marcadamente político. De Babel a Blood Diamond, de The Queen a The Last King of Scotland, passando pelo díptico de Clint Eastwood sobre a Batalha de Iwo Jima e acabando nas politiquices musicais de Dreamgirls. A Alemanha tem uma negra mas riquíssima história, particularmente no Século XX, que tem sabido explorar e recriar no cinema, com excelentes resultados – relembre-se Der Untergang, de Oliver Hirschbiegel, que há dois anos perdeu o Óscar de Melhor Filmes Estrangeiro para o espanhol Mar Adentro.

 

Das Leben der Anderen, primeira longa-metragem de Florian Henckel von Donnersmarck, afasta-se do período recorrente da Segunda Guerra Mundial, acabando por se centrar nos tempos conturbados que se lhe seguiram, a segunda metade do Século XX, na qual a Alemanha se tornou no coração de uma bipolarização mundial, com a sua divisão em República Federal Alemã e República Democrática Alemã. É nesta última, a Este do Muro de Berlim, que decorre a acção do filme.

 

Donnersmarck explora todo o conservadorismo e proibição que se vivia na RDA na altura, particularmente a supervisão com punho de ferro que se impunha sobre o mundo das Artes. A personagem principal, aliás, é Georg Dreyman, um dramaturgo que arrisca a sua já limitada liberdade para informar o exterior da opressão vivida. O verdadeiro ponto de interesse, no entanto, consiste em verificar a evolução ideológica do agente encarregue de vigiar e relatar todos os movimentos de Dreyman. É na história de redenção deste agente, interpretado com uma contenção notável por Ulrich Mühe, que o realizador concentra os seus maiores esforços, e é nela que residem os momentos de maior densidade dramática de todo o filme. Não é uma personagem de todo inédita, mas resulta na perfeição devido à expressividade de Mühe, que compõe um homem que começamos por detestar mas com o qual não conseguimos evitar simpatizar.

 

Na boa tradição do cinema europeu, Das Leben der Anderen é uma obra sóbria, informativa e tocante, que consegue fazer passar a mensagem sem se esforçar demasiado. Donnersmarck cria personagens fortes, com uma dimensão real e não apenas simples marionetas usadas ao serviço do avançar do argumento, e com elas conta-nos uma história credível que, infelizmente, ainda reflecte a situação de certas nações. Um dos grandes filmes de 2006.

 

9/10


Fábio Jesus às 19:36
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