Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

Andrew Bird no TAGV



Conheci a música de Andrew Bird há um bom par de anos, aquando do lançamento de The Mysterious Production of Eggs, o excelente segundo álbum da sua carreira pós-Bowl of Fire, a banda que o acompanhou nos primeiros anos de carreira e com a qual gravou três LPs. The Mysterious Production of Eggs – com a sua inebriante mistura de influências, do jazz ao folk – tornou-se rapidamente num dos meus discos favoritos de 2005 e transformou o intérprete num dos que mais estimo, posição reforçada após audição atenta dos seus trabalhos mais antigos, assim como do recente Armchair Apocrypha. Na altura, estava longe de imaginar que um dia teria a oportunidade de assistir a um concerto de Bird ao vivo, tendo a sua estreia em Portugal, em 2005, em Lisboa e Famalicão, me passado completamente ao lado. Agora, dois anos volvidos, o músico de Illinois regressou para um trio de concertos, e não pude deixar escapar – mais uma vez – a oportunidade de o ver, anteontem, no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), em Coimbra.


Andrew Bird é, antes de mais nada, um músico prodigioso e multifacetado, fazendo por merecer, como poucos outros, o epíteto de ‘one-man show’. No concerto de anteontem, acompanhado por Martin Dosh na bateria e teclado e por Jeremy Ylvisaker, que se encarregou do baixo e dos back vocals, Bird demonstrou todo o seu virtuosismo, cantando enquanto manuseava a guitarra, o violino ou o glockenspiel com inusitada perícia, assobiando melodicamente enquanto samplava vários sons e os reproduzia em loop, para resultados de uma classe desarmante. Num TAGV praticamente esgotado – facto que me surpreendeu pela positiva – Bird e os seus dois convidados actuaram durante muito perto de duas horas, numa performance elegante e segura que, com certeza, não deixou ninguém defraudado.


Esta viagem do músico pela Europa serve, antes de mais nada, para apresentar Armchair Apocrypha, tocado quase na íntegra. Após um mini-espectáculo a solo de Martin Dosh, que abriu o concerto, Bird assumiu o controlo, combinando um solo de violino com a bela Imitosis – que motivou uma surpreendente reacção por parte da audiência, já familiarizada com alguns temas do mais recente trabalho do artista. Após um algo tímido “Boa Noite. My name is Andrew and these are my friends”, o passeio por Armchair Apocrypha continuou com uma versão mais rockeira mas igualmente portentosa de Fiery Crash, à qual se seguiu aquele que foi provavelmente o ponto alto da noite: a primeira incursão em The Mysterious Production of Eggs trouxe-nos Measuring Cups e A Nervous Tic Motion of the Head to the Left, entusiasmando a audiência a um nível que escassas vezes foi reproduzido.


Até ao fim do concerto houve ainda tempo para sermos presenteados com a poética Cataracts e a genial Plasticities, assim como as menos conhecidas Heretics, Simple X e Armchairs e um solo com Why?, a única música de The Swimming Hour (2001) da noite. Pelo meio, Bird – já mais descontraído – tirou um momento para apresentar ao público o seu fantoche pessoal, um macaco adornado com um mini-violino e com um “detalhe fantástico”, segundo o próprio, num momento cómico singular que reforçou a sua cumplicidade com o público. Após Skin is, My, terceiro tema de The Mysterious Production of Eggs, o trio abandonava o palco pela primeira vez. Minutos mais tarde, e motivados por uma ovação de pé, regressaram para um encore que trouxe a muito cantável Scythian Empires e a cómica Dr. Stringz, que Bird criou, em Janeiro, para uma participação especial no programa para crianças Jack's Big Music Show, do canal infantil didáctico por cabo Noggin. The Happy Birthday Song – dedicada a um elemento do público, que celebrava o aniversário – pôs um ponto final em definitivo ao concerto e foi seguida de nova ovação.


Apesar de alguns momentos mais apagados – potenciados, maioritariamente, pelo desconhecimento do público de algumas composições do último álbum – um concerto de Andrew Bird é uma ocasião muito especial, que se cola a nós, tal como a sua música. Fica a pena por não ter podido ouvir ao vivo a minha música de eleição do artista, a genial Masterfade, mas – espero – fica para uma próxima. Com o concerto de hoje, em Braga, Bird encerra a sua paragem em Portugal, deixando, indelével, a sua marca. Se mantivermos a lógica, estará de volta em 2009, talvez com um álbum novo na manga. Já estou ansioso.


Fábio Jesus às 23:47
link | favoritos
De Paulo Lemos a 2 de Junho de 2007 às 16:42
Óptima crítica, adorei o texto! Pela sua descrição foi um grande concerto. Caso a lógica do nosso amigo Jesus se confirme, em 2009 na próxima celebração do Andrew Bird marcarei assim a minha presença :)


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.


▪ os pornógrafos

▪ pesquisar

 

▪ Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

▪ posts recentes

Maio

Apichatpong, dois

As quatro voltas

Apichatpong, um

Simpatias

Filmes difíceis

O adeus televisivo de uma...

Black Swan

Re-Animator

A rainha da galáxia

▪ tags

1982(1)

1985(1)

1989(1)

2004(3)

2006(11)

2007(67)

2008(75)

2009(46)

2010(8)

2011(1)

a música é a mãe de todos os vícios(16)

a música é mãe de todos os vícios(1)

apartes(3)

arte(2)

artwork(2)

cinema(190)

concertos(25)

críticas cinema(8)

críticas literatura(1)

críticas música(1)

efemérides(1)

entrevista(1)

festivais(2)

fotografia(1)

literatura(11)

momentos "saduf! muito bom!"(9)

música(231)

musica(1)

notícias cinema(1)

notícias música(7)

notícias televisão(3)

obituário(2)

off-topic(8)

pintura(2)

promessas(2)

quem escreve assim não é gago(7)

revistas(1)

televisão(101)

tops(7)

velhas pornografias(3)

videojogos(3)

todas as tags

▪ links

free tracking

▪ subscrever feeds