
2004 foi um ano vintage para a produção televisiva norte-americana. Conceitos como o de Lost ou Desperate Housewives marcaram (e marcam), de forma indelével, uma geração de espectadores que já queria mais do que as intermináveis histórias de naves espaciais, as comédias familiares politicamente correctas e as firmas de advogados que ganham todo e qualquer caso que defendam. Os novos heróis estão em ilhas com poderes muito especiais ou moram em vizinhanças que parecem perfeitas mas que não o são. Acompanhei com curiosidade os primeiros passos das duas séries e, se Desperate Housewives se vem progressivamente afundando na sua narrativa de "faca e alguidar", já Lost sigo religiosamente até porque, apesar das constantes flutuações da 3º Temporada, presenteou-nos com uma extrordinária Season Finale que guardarei na memória como um dos grandes acontecimentos televisivos a que tive o prazer de assistir. Mas neste ano de Europeu em Portugal, a série que mais curiosidade me suscitou não foi Lost ou Desperate Housewives mas sim aquela do médico anti-social, abrasivo, mal arranjado mas que é um génio do diagnóstico.
Muitos já me perguntaram o porque deste meu culto quase irracional à série House. E eu respondo que talvez porque esta produção tinha tudo para falhar e esse "tudo" é, no fundo, o que lhe dá ainda mais piada. Se não vejamos: numa jogada nunca antes feita por um canal aberto, a Fox aposta numa série em que o protagonista é um anti-herói. Mais, ele é mal-educado, goza com os seus pacientes, é capaz de passar por cima de qualquer regra e os seus métodos são tudo menos ortodoxos. Pior, ele é médico, aquela sempre confiável personagem de série, que nos conta palavras bonitas e confortantes quando estamos prestes a "quinar". Depois, para o cenário ficar mesmo negro, a série tem sempre o mesmo formato. O doente tem um qualquer ataque, House recusa-se a tratá-lo, House interessa-se pelo doente porque os exames estão todos normais mas mesmo assim ele está doente, House acha que o pobre tem uma determinada doença e aplica-lhe o respectivo tratamento, o doente piora e fica ás portas da morte e mesmo no final do episódio House tem uma ideia tão disparatada como genial e acertada que salva o enfermo das garras da morte.
Apesar de todo o relambório acima, House é, para esta vossa escriba, umas das melhores séries dos últimos anos e, de longe, o melhor drama médico da TV. Isto porque, apesar de todas as condicionantes, a série do anteriormente discreto David Shore, é, essencialmente, uma produção inacreditávelmente bem escrita, com diálogos excepcionais, momentos de humor inteligente q.b. e uma interpretação a roçar a genialidade de Hugh Laurie, que vai limpando, merecidamente, tudo o que é prémio. E por muito que o formato seja repetitivo, uma série bem escrita é e será sempre a primeira coisa que procuro.
Esta 3º temporada, que teve a sua Season Finale nos EUA na última terça-feira, é a temporada mais inconstante da série. Começa com rol de episódios absurdamente bons atingindo a quase perfeição ao 4º episódio, Lines in Sand. Nunca um episódio de House foi tão completo. Doses de humor, momentos House, de cenas na clínica, tudo em medidas perfeitas. E até uma cena recalcada de Casablanca. Um mimo. Contudo, o aparecimento do Detective Tritter, disposto a atirar House para a cadeia devido à sua adição foi um tiro ao lado dos argumentistas da série. Story arc enfadonho e inconsequente e a prova que a série é bem melhor quando não tenta julgar Gregory House. E a resolução do story arc dá-nos, depois de duas temporadas e meia, o primeiro episódio mau da série. Apartir daí a temporada volta a ganhar algum fôlego com vários episódios marcantes na história da série, nomeadamente One Day, One Room que contraría a lógica de House, num episódio centrado nos doentes da Clínica e Half-Wit, com a participação especial de Dave Matthews.
Human Error, a Season Finale, não é um episódio brilhante mas pode marcar a série. O caso clínico é banal mas, mais importante, a relação de House (inundado por um repentino surto de mudança) com os seus subordinados é posta em cheque e o desfecho é imprevisível. Assim a 4º temporada começa com muitas dúvidas e apenas com uma certeza: os produtores e argumentistas querem dar um abanão no formato. Uma táctica que tanto pode funcionar como revelar-se suicída até porque House é, neste momento, uma das séries mais vistas em terras do Tio Sam (é verdade que muito por culpa do fenómeno American Idol).
E como vai o próprio Gregory House lidar com a mudança? Uma pergunta a ser respondida em Setembro.
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